O sintoma do amo é precisamente não querer saber de nada do que sustenta o seu poder. Jacques Lacan
O cerco perfeito: quando a asfixia é a política
A atual crise energética que Cuba atravessa não é um acidente da natureza nem uma mera falha de infraestruturas. É o ponto culminante de um cerco geopolítico concebido com precisão cirúrgica ao longo de seis décadas. O que a ilha vive hoje é a convergência letal da guerra económica tradicional — o bloqueio — e um novo contexto internacional onde os atores que deveriam equilibrar a balança optaram pelo que poderíamos chamar de uma geopolítica do mínimo.
Cuba enfrenta não só a hostilidade do império, mas também o abandono silencioso daqueles que, em teoria, deveriam contestar a ordem unipolar.
Mas antes de analisar as coordenadas geopolíticas, é necessário interrogar o mapa psíquico que subjaz a esta situação. Porque o que acontece com Cuba não é apenas um problema de correlação de forças; é também um problema de desejo, de fantasma político, daquilo a que Freud chamou Verneinung, a negação como forma de reconhecimento encoberto. Aqueles que abandonam Cuba negam-na, mas ao negá-la, confirmam-na e, acima de tudo, confirmam o que negam de si próprios. O bloqueio existe porque Cuba ainda interpela, continua a ser um sintoma incómodo dentro do sistema capitalista global. Se Cuba não representasse qualquer ameaça real, bastaria ignorá-la. O facto de ser necessário destruí-la demonstra que a sua mera existência continua a ser intolerável para a ordem do Amo.
A pergunta que paira sobre este texto pode irritar mais do que um, mas é necessária: o que resta da solidariedade internacional quando os gestos simbólicos substituem as ações concretas? O que significa realmente apoiar Cuba quando o cerco se estreita e a asfixia se torna material? E, acima de tudo: o que diz sobre o conjunto de forças geopolíticas que declaram querer outro mundo o facto de serem capazes de assistir a esse afogamento sem mexerem um dedo?
O abandono não declarado dos parceiros estratégicos







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