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sexta-feira, 2 de maio de 2014

As favelas não desceram à cidade

Pedro Campos.
As guarimbas estão derrotadas. Os sinos tocam a finados. Tocam a finados porque a paz chegou 41 mortos depois e 18 mil atos terroristas depois. Tocam também a finados porque, uma vez mais, a hierarquia religiosa alinhou despudoradamente com a reação mais extrema, mais terrorista. O exemplo mais recente é a última declaração oficial da Conferência Episcopal Venezuelana. Com aquelas falinhas mansas que lhe conhecemos um pouco por todo o mundo, uma vez mais, os grandes caciques da Igreja Católica puseram-se contra o povo pobre que dizem defender. É que entre o dizer e o fazer há um grande caminho a percorrer.

As guarimbas estão derrotadas, mas voltarão com novo rosto igualmente terrorista porque o fascismo nunca desarma e Washington nega-se a aceitar que são outros tempos os que vivem os povos da América Latina, onde a Venezuela é um exemplo de que outro mundo é possível.


Como resultado da guerra económica contra o governo de Maduro – num ano sofreu quase tantos embates da reação como Hugo Chávez em 14 – é certo que na Venezuela há um sério problema de abastecimento de vários bens de primeira necessidade. A extrema-direita, aliada ao grande capital, fez os seus cálculos. Se quem mais sofre com a falta de abastecimento são os pobres, certamente que se nos unirão saindo à rua a protestar. Era a lição do Chile de Allende. Também pensavam reeditar, noutro contexto, os acontecimentos de Fevereiro de 1989, a rebelião popular conhecida como o «Caracazo». Contudo os cálculos saíram-lhe furados porque o povo soube ler o que estava a suceder. Em 1989 havia abastecimento total e o que não havia, especialmente nas classes populares, era dinheiro para os comprar. Agora há dinheiro, mas não há produtos.


Vejamos. Em 2011 o rendimento médio de uma família era de 4253 bolívares. Em 2012 passou para 6252 e no final 2013 tinha saltado para 8514... mais do dobro. O problema não é distribuição da riqueza. É a conspiração.


Diz-se que as guarimbas são movimentos de «estudantes pacíficos». Para além de que muitos dos terroristas não são nem estudantes nem pacíficos, que se passou com a educação nos últimos anos? No ano 2000 havia pouco mais de 862 mil estudantes universitários. Em 2005 já eram mais de milhão e meio e no final do ano passado perfaziam dois milhões 629 mil 312! Se estes estudantes tivessem saído à rua, qualquer governo caía...



Falemos de saúde: as despesas saltaram de oito mil milhões de bolívares para perto de 89 mil milhões entre 2005 e 2013. E se olhamos para o investimento social, o salto foi de 11 mil 458 milhões de bolívares (2005) para 134 mil 414 milhões de bolívares (2013).


Observando estes números, além do aumento de pensionistas e a diminuição dramática dos níveis de pobreza, acaso pode alguém estranhar – exceto a uma oposição fascitoide – que o diretor da FAO para a América Latina e as Caraíbas reconheça o esforço da Venezuela para erradicar a fome a pobreza e afirme que se esse esforço fosse universal «há muito se teria acabado com este problema»? Poderá alguém minimamente honesto surpreender-se ou escandalizar-se com o facto de o programa da FAO ter agora o nome de Hugo Chávez Frías porque se adiantou «dez anos aos demais líderes mundiais» no capítulo da luta contra a fome a pobreza? Longe de ver esta decisão como um capricho, tal como apontou oportunamente Raúl Benítez «é a melhor forma que temos para honrar este homem que foi tão visionário neste tema».


Foi por estas e outras razões de grande peso que a favelas não desceram à cidade para se solidarizarem com os tais «estudantes pacíficos», os mesmos que provocaram 18 actos terroristas, causaram perdas materiais – públicas e particulares por mais de 15 mil milhões – centenas de feridos e mais de quarenta mortos. O que desceu à cidade foi o fascismo... Um fascismo bem organizado e apoiado internacionalmente. Veja-se um exemplo.


Numa das zonas ricas da cidade foram detidos e acusados de actos terroristas Akl Sfeir Richard e Akl Khoury Chamel, 48 e 36 anos, respectivamente. Iam numa viatura rústica equipada com vários compartimentos. Um deles preparado para deitar óleo nas vias para provocar acidentes. Outro com pregos para imobilizar carros. Outro com gases lacrimogéneos. Estes manifestantes «pacifistas» transportavam pistolas e munições, máscaras anti-gás e coletes contra balas, um engenhoso explosivo, telefones satélite, bidões de gasolina e ainda câmaras na frente e rectaguarda da viatura. Isto parece ser tudo menos um equipamento para um piquenique!



E por falar em estudantes....

 O Ministério da Educação da Venezuela iniciou a 23 de Abril uma consulta popular sobre a qualidade da educação nas 29 mil escolas públicas e privadas do país. A recolha de opiniões – que durará cinco meses – envolverá sete milhões de estudantes e 600 mil docentes, e visa definir o plano de educação para a próxima década, as bases para o currículo nacional e a formulação dos instrumentos legais em matéria educativa.
Segundo o vice-presidente para a Área Social, Héctor Rodríguez, citado pela Prensa Latina, a consulta convoca todo o povo venezuelano a pronunciar-se de forma colectiva sobre «que educação queremos, o que fizemos bem para ser desenvolvido e o que fizemos mal para ser corrigido, e o que nos falta fazer para garantir uma educação cada vez melhor».

A convicção das autoridades de Caracas é que para a Venezuela se transformar numa potência – meta fixada no Plano Pátria como programa nacional até 2019 –, necessita de uma educação de qualidade cada vez melhor.

O processo de consulta teve um período experimental para aferir a capacidade de apreensão das perguntas, inclui iniciativas regionais e culminará num congresso pedagógico nacional.

O apelo à participação é dirigido a toda a sociedade com o objectivo de consolidar um sistema de educação público, gratuito e de qualidade.


Fonte: Avante 

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