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sábado, 3 de maio de 2014

Mundial de 2014 do Brasil: o mais caro de sempre

Luis Leiria
Brasil já gastou em estádios mais do que a África do Sul e a Alemanha juntas (mundiais de 2010 e 2006). Ex-estrela de futebol Romário diz-se enganado porque, ao contrário do que disseram Lula e Dilma Rousseff, os recursos investidos foram 95% públicos.


Pelas últimas contas, feitas às vésperas da abertura do Mundial de Futebol de 2014 no Brasil, a construção ou remodelação dos estádios onde os jogos vão decorrer custou cerca de 2.900 milhões de euros, um valor que representa uma derrapagem global de 66% a mais do que os gastos previstos em 2010.

Com as obras concluídas ou à beira da conclusão, o Brasil passa a ter metade dos 20 estádios mais caros do planeta, segundo um estudo realizado pela empresa KPMG. O ranking elaborado pela empresa coloca o Estádio Mané Garrincha em 3º lugar, atrás apenas do Wembley e do Emirates Stadium, ambos no Reino Unido. Cada lugar do estádio de Brasília custou 6.700 euros.

Gastos superiores aos dos Mundiais da África do Sul e da Alemanha somados

A Copa do Mundo de Futebol, como é conhecido o Mundial de 2014 no Brasil, já supera largamente em gastos todas as anteriores. Mais: os gastos com os estádios são maiores do que o somatório de tudo o que foi gasto nos estádios dos dois Mundiais anteriores, os da África do Sul de 2010 e da Alemanha de 2006.



Em junho do ano passado, o Brasil viveu uma onda de indignação com enormes manifestações que tiveram como uma das bandeiras a denúncia dos gastos com a Copa. As exigências da Fifa para a construção dos estádios deram origem a palavras de ordem como “Não queremos estádios – Queremos escolas e hospitais” e “Queremos escolas e hospitais no padrão Fifa”.

O governo argumentou que o dinheiro não vinha do orçamento federal, o que não passou de uma manobra retórica, já que há investimentos federais diretos e também mascarados de empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aos clubes, além dos gastos dos orçamentos estaduais e municipais e as isenções fiscais de que a FIFA beneficia. No total, a realidade é que mais de 95% dos gastos são públicos.

Romário: “Fui enganado”


O antigo jogador da seleção Romário, um dos heróis do Mundial ganho pelo Brasil em 1994, hoje deputado federal, disse que se sentiu enganado pelo ex-presidente Lula, pela atual presidente, Dilma Rousseff, e pelo ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira em relação aos gastos com a realização do Mundial. “O Brasil não só tinha condição de sediar uma Copa, como tinha a condição de sediar a maior Copa de todos os tempos. Assim como todos, eu fui enganado. Eles tinham divulgado que 90% do gasto seria de dinheiro privado. Hoje temos quase 98% de dinheiro público, gasto totalmente errado. Dinheiro que a gente poderia colocar em outras áreas que são extremamente precárias, como educação e saúde. O que vejo de mais errado é esse gasto astronómico, totalmente fora do planeado, e o enriquecimento ilícito de vários políticos”, disse Romário.

Para a ex-estrela de futebol, “a Copa do Brasil fora do campo a gente já perdeu e de longe. Agora a gente tem que torcer para que a seleção seja campeã dentro de campo. Eu particularmente torço. Infelizmente, por outro lado, tenho que admitir que muito dos problemas vão ficar por baixo dos panos. Esse é o nosso país. Uma vitória em Copa do Mundo apaga e esconde muitas coisas”, disse.

 ' Hoje temos quase 98% de dinheiro público, gasto totalmente errado. Dinheiro que a gente poderia colocar em outras áreas que são extremamente precárias, como educação e saúde, diz Romário.

Lucros da Fifa

Os gastos são públicos, mas os lucros privados. A Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa) já garantiu uma receita recorde com o Mundial. O valor das isenções fiscais concedidas pelo governo federal do Brasil é calculado em 323 milhões de euros e a entidade que comanda o futebol mundial conta com mais de 900 contratos comerciais fechados e 19 cotas de patrocínios, sendo 13 com grandes multinacionais, apontando para um ganho mínimo de 2.850 milhões de euros com o torneio. A Copa mais lucrativa da sua história.

Só que os adeptos brasileiros ficarão muito longe dos estádios. O “torcedor” comum brasileiro apenas teve acesso a um terço dos ingressos da Copa de 2014 pela distribuição inicial da Fifa, já que mais da metade do total de 3,3 milhões de bilhetes foi para a federação internacional, associações nacionais de futebol, para a CBF e parceiros comerciais, Vips, Comité Organizador, governo federal, entre outros. E uma parcela foi destinada exclusivamente a estrangeiros.

A Fifa tem o monopólio da venda dos bilhetes, e o fenômeno do mercado negro já começa a funcionar, desta vez também virtualmente. O preço de um bilhete em sites de “candonga” para um único jogo pode chegar a 29 mil euros!

A Copa já era!

Num extenso e documentado artigo, o jurista Jorge Luiz Souto Maior, professor livre-docente da Faculdade de Direito da USP e membro da AJD – Associação Juízes para a Democracia, desmonta com pormenor a argumentação de que apesar dos gastos astronómicos a Copa trará ganhos para todos os brasileiros – e não só para a Fifa.

“Há de se indagar qual o preço pago pela população brasileira”, argumenta, já que terá de conviver com “o verdadeiro legado da Copa: alguns estádios fantasmas e obras inacabadas, nos próprios estádios e em aeroportos e avenidas”.

O jurista faz as contas ao já citado estádio Mané Garrincha: “levando-se em consideração o resultado operacional com jogos e eventos obtidos em um ano após a conclusão da obra, qual seja, R$1.137 milhões, serão precisos 1.167 anos para recuperar o que se gastou, o que é um absurdo do tamanho do estádio”.

O problema aumenta, diz o professor, quando recordamos que nunca se viu no Brasil “a mesma disposição de investir dinheiro público em valores ligados aos direitos sociais, tais como educação pública, saúde pública, moradias, creches e transporte”.


Fonte: esquerda.net-

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