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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A perigosa amnésia europeia


por Antonio Rondón.

Poucos no mundo atrevem-se a negar o horror do Holocausto, mas as crises econômicas ou o afã por demonizar o comunismo parecem levar a uma perigosa amnésia na Europa: capaz de tolerar o neofascismo e a revisão do ocorrido na II Guerra Mundial.

A segunda conflagração mundial deixou sem vida nos campos de concentração fascistas em toda Europa mais de 20 milhões de pessoas, para além dos cinco ou seis milhões de judeus exterminados, mas é no Velho Continente onde ressurgem com mais força as tentativas de esquecimento.

Apesar da existência de grandes “monumentos” ao genocídio em Aschwitz, na mesma Polônia ou na vizinha República Checa, são cada vez mais fortes as tentativas de demonizar os verdadeiros protagonistas da II Guerra Mundial ou de, ao menos, suavizar as atrocidades do fascismo hitleriano.

Um pequeno esclarecimento para as memórias europeias: a alta chefatura do exército nazista alemão dispôs como um de seus principais objetivos a subjugação de 500 milhões de pessoas e o extermínio da maior quantidade de judeus e eslavos possíveis, a quem também consideravam como uma raça débil.

Depois de massacrar quase 200 mil judeus somente na Alemanha, o regime hitleriano criou os campos de extermínios para cremar corpos de prisioneiros, um método mais “eficiente” e rápido que asfixiar com gás tóxico.

No entanto, no Velho Continente, 22 países abstiveram-se e foram incapazes de ratificar em junho deste ano uma resolução da ONU para condenar as tentativas de revisão da história na II Guerra Mundial e de reivindicar o fascismo.

Estados Unidos, o rei da democracia para pedi-la, exigi-la e impô-la, considerou que a resolução coarctava a “liberdade de expressão”, isto é, a liberdade de propagar uma corrente que representa as mesmas ideias do extermínio e da exclusão hitleriana.

Depois da queda do campo socialista europeu, muitos se deram à tarefa de reescrever a história e reduzir a zero qualquer coisa que poderia destacar as bondades do socialismo para, pelo contrário, tratar de demonizar ou, no menor dos casos, atenuar a experiência positiva do sistema saliente.

Isso se fez mais evidente nos próprios países ex-socialistas, sobretudo, em nações como a República Checa ou Polônia, em que se chegou a proibir por lei os símbolos alusivos à época socialista ou da extinta União Soviética.


Os poloneses chegaram a impor proibições para ocupar cargos públicos a quem a seu momento pertenceram a órgãos de segurança na época socialista, enquanto mostram mais tolerância, sob o pretexto da liberdade de expressão, para os neofascistas.

Ademais, chegou-se a ilegalizar a militância em organizações ou partidos comunistas.

Nas pequenas repúblicas na costa do mar Báltico, em sua maioria reverteu-se o curso da história ao mudar os termos do que ocorreu em II Guerra Mundial e situar os fascistas e seus cúmplices nacionalistas como lutadores pela liberdade, enquanto chamam de ocupantes o Exército soviético e julgam os antifascistas.

Tais tendências são observadas enquanto a União Europeia (UE), incansável veladora dos direitos humanos, observa impassível as violações que são cometidas contra a comunidade russa na Estônia ou Lituânia, onde constitui quase 50 por cento da população.

Vilna considera os russos como pessoas sem cidadania, sem direito a votar ou de gozar as prerrogativas do resto dos lituanos, num caso de segregação sem precedentes na Europa de pós-guerra e sobre o qual a UE prefere calar.

O bloco comunitário também guarda silêncio sobre as regulações para permitir e inclusive festejar a criação das formações lituanas de apoio às SS, enquanto os monumentos aos lutadores contra o fascismo são eliminados ou transladados a lugares recônditos das cidades.

Como nos tempos da grande depressão da década de 1930, agora a crise econômica e a precariedade social se convertem em caldo de cultivo para a ascensão de formações ultradireitistas como ocorreu na Áustria e depois na Dinamarca, enquanto avança na França, Alemanha e Hungria.

No entanto, a formação de um estado de opinião capaz de levar a aceitar a corrente neofascista possui várias facetas e uma delas poderia estar relacionada com a assinatura da Declaração de Praga.

O revanchismo e o afã por reduzir ao mínimo as bondades do socialismo desatam em seu texto uma condenação ao comunismo que em todo momento, através da figura de Joseph Stalin, tratam de equiparar com os desmandes do fascismo.

A declaração, aprovada pelo Parlamento Europeu, propõe, inclusive, uma revisão dos livros de texto para incluir os supostos crimes cometidos pelos comunistas, destaca o professor Joseph Slaviansky.

Para chegar a essa posição prepara-se a opinião pública. De acordo com o site Global Research, em muitos casos empregam-se comerciais que tratam de “sanear” a imagem do fascismo ou suas atrocidades.

De acordo com a mencionada fonte, existem comerciais de produtos para emagrecer, os quais, para acentuar a efetividade de sua aplicação, empregam símbolos do sofrimento humano como os campos de concentração.

Outros anúncios referem-se à efetividade de uma companhia de gás que apresentam simultaneamente imagens de câmeras de gás utilizadas nos campos de extermínio.

Precisamente, o mencionado tipo de propaganda é o que propõe proibir a declaração da ONU de junho deste ano.

O documento contou com o apoio de 120 nações incluídas Síria, Cuba, a República Popular Democrática de Coreia, Israel, Paquistão e Irã, apesar das acusações de Tel Aviv de que este último reduz a importância do Holocausto.

A resolução expressa profunda preocupação pela glorificação do nazismo e pelo tratamento como “lutadores pela liberdade”, dado a antigos membros da SS, um órgão repressivo da inteligência fascista.

Global Research destaca que a tendência na Europa é pôr ao mesmo nível as atrocidades perpetradas pelas forças fascistas contra a população civil, em especial, a judaica, com os métodos que teria empregado Stalin dentro da União Soviética.

O objetivo em longo prazo é levar tudo o que é relacionado com o comunismo a um regime de ilegalidade total e desterrar qualquer indício dos aspectos positivos da vivência socialista na Europa, comentam especialistas.

De fato, considera-se que negar a mera existência do Holocausto é um delito muito menor que o de tratar, com comerciais de duvidosa reputação, manejar os verdadeiros horrores causados pelas câmeras de gás ou a dor das pessoas exterminadas nesses centros de morte.

A isso se soma a propaganda em meios audiovisuais na Europa, nos quais, sob o manto de conseguir uma maior objetividade do ocorrido na II Guerra Mundial, se tergiversam abertamente os acontecimentos nessa conflagração mundial.

A preparação pública pela via citada também permitiu a ascensão a estratos políticos e inclusive ao poder de organizações abertamente xenófobas ou neofascistas na Europa, ao mesmo tempo em que leva a uma tolerância de assuntos que, disfarçados de uma flexibilidade na visão do mundo, sempre foram considerados como genocídio.

Há uns anos, na Ucrânia, por exemplo, chegou-se a incluir num concurso televisivo sobre as 100 personalidades mais importantes da história desse país a líderes como Stepan Bandeira, do agrupamento fascista UPA, vinculado a massacres cometidos contra ucranianos judeus ou comunistas durante a II Guerra Mundial.

A curta memória ou amnésia política da Europa levou à necessidade de propor na ONU uma resolução sobre a glorificação do fascismo, em especial, depois da aprovação da Declaração de Praga, à qual se uniu a maioria dos estados ex-socialistas europeus.

Antonio Rondón é chefe da Redação Europa de Prensa Latina

Fonte:  Fundação Lauro Campos

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