por Gabriel Brito- Como raras vezes se vê ocorrer,
os últimos dias foram e continuam sendo de comoção em torno da maltratada causa
indígena no Brasil. Após uma ordem de despejo da 1ª Vara Federal de Naviraí
(MS) sobre terra indígena dominada por fazendeiros em Dourados (MS), os índios
guarani kaiowá anunciaram através de carta aberta que não aceitavam a decisão e
ficariam em suas terras ancestrais, vivos ou mortos, o que chegou a ser
interpretado pelo público como um indicativo de suicídio coletivo.
Não era exatamente do que se
tratava, pois os índios afirmavam que lutariam até o fim pelas terras e
descartavam qualquer retorno à miserabilidade das cidades ou das beiras de
estradas. De toda forma, o Brasil inteiro e agora o mundo veem se acirrar o conflito
entre os latifundiários e seus habitantes originários, que por sua vez têm sido
vítimas de uma crescente violência, representada pelas cerca de 500 mortes de
índios guarani no estado desde 2003.
“Só nas aldeias Passo Piraju,
Bokerón e Pyelito Kue (região de Dourados), são 412 famílias. Desde 2004, há um
mandado de reintegração de posse. Hoje, a aldeia é estruturada, com água,
energia, escola, posto de saúde, roça, animais, pomares...”, conta o cacique
guarani Ládio Veron, que se encontra em São Paulo até 1º de novembro em busca
de apoio e divulgação da causa guarani-kaiowá.
Na conversa com o cacique da
aldeia Takuara (também afetada pela violência do “moderno” agronegócio),
hospedado na metrópole por militantes sociais, fica claro que a repercutida
declaração de guerra dos fazendeiros do Mato Grosso do Sul é concreta, já se
traduzindo em cercos armados por pistoleiros em diversas fazendas, ou suas
beiradas, ocupadas e acampadas pelos índios, em sua maioria guarani neste
estado.
“Já temos 46 novas aldeias
prontas pra serem reconhecidas. Três tiveram terras homologadas e outras três
demarcadas. Todas foram embargadas pelo STF. Falta o estudo antropológico de
todas as outras. A demora da FUNAI leva ao conflito. Nisso, somos muito
ameaçados pelos fazendeiros e pistoleiros. E o índio começa a cansar, começa a
acampar, mesmo em péssimas condições – sob sol, chuva, na lama, tem índio
vivendo assim embaixo só de uma lona preta”, explica Ládio, deixando claro que
os indígenas não abrirão mão de retomarem seus territórios, independentemente
de saírem ou não as homologações e demarcações que esperam eternamente. “A
takuara tem 90 hectares e 88 famílias, aguardando a demarcação. Mas Gilmar
Mendes suspendeu todos esses processos de demarcação e homologação que citei”,
completa.
Tal decisão não surpreende, ainda
mais vinda de um magistrado famoso pela atuação política coronelista desde sua
terra natal (Diamantino-MT), onde, por sinal, amealhou terras por meio de seus
amigos da ditadura, como já comprovado pela imprensa. O pior, no entanto, é o
padrão de decisões da justiça, em especial a sul-mato-grossense, sempre em
favor dos proprietários brancos, quaisquer sejam as circunstâncias e perigos em
jogo. “Nas mãos da justiça de São Paulo, os assassinos foram presos. Depois, o
processo foi pra justiça do MS, que libertou os assassinos do meu pai. Agora,
eles voltaram às milícias e continuam aqui nos ameaçando”, denuncia Ládio.
Aliás, o cacique também já foi
alvo dos algozes do Cerrado, no que configura um método, no sentido de
desfigurar a resistência e identidade indígenas. “Muitas lideranças estão
morrendo, caciques, professores, rezadeiras. Eles têm como estratégia eliminar
as referências dos índios e com isso enfraquecer mais ainda sua luta. Hoje
morrem muito mais índios do que no tempo do FHC, quando nenhuma liderança
morria”, disse, desnudando mais esse fracasso do governo Lula, disfarçado pelo
ufanismo publicitário que exalta o “dinamismo” do agronegócio e sua importância
na balança comercial do país.
Virada
Após prometer que demarcaria
todas as terras indígenas já estudadas antropologicamente, o ex-presidente
voltou a mostrar suas inumeráveis facetas políticas ao fechar acordo de
biocombustíveis com o então presidente dos EUA, George Bush, nos idos de 2007,
dando início a um período de inaugurações em série de usinas de álcool e cana
de açúcar, geralmente tocadas à base de trabalho escravo e cujos donos foram
por ele qualificados como “herois nacionais”.
“Depois das promessas não
cumpridas, Lula fez o acordo dos biocombustíveis e foi aí que o jogo virou.
Passou a falar em usinas, foi a inaugurações em que foi recebido com tapete
vermelho de 10 metros pelos fazendeiros...”, lamenta o cacique.
Como desgraça pouca tem sido
bobagem, os indígenas, na prática, não podem contar com o órgão oficial que em
tese deveria estar a serviço de seus interesses. “A FUNAI, por sua vez, alega
falta de estrutura. Não é o que vemos quando vamos lá. Tem funcionário se amontoando,
assim como as cestas básicas que deveriam ser entregues aos índios”, critica.
Conforme avança a conversa com a
liderança guarani, o mesmo ocorre com o grau de surpresa a respeito dos atos do
órgão indigenista, o que faz suspeitar que seu principal papel seja o de
praticar um jogo duplo que contenha a indignação dos índios, ao passo que
mantém na mais extrema morosidade os processos de reconhecimento e entrega de
terras. Inclusive, fazendo ameaças.
“A FUNAI tenta nos retaliar
quando nos pronunciamos, vem dizer que não podemos e fazem ameaças. Foram ao MP
pedir algum tipo de decreto que impedisse oficialmente as lideranças de se
pronunciarem publicamente. Mas não tenho medo disso, vou falar. Alguém tem que
sair de lá e falar. Outros também farão isso”.
Uma política de Estado
Apesar da indignação que se
espalha com considerável alcance pelo país ante uma clara possibilidade de
genocídio, não se pode vender ilusões de que a atual mobilização pelos direitos
indígenas (reconhecidos pelo Brasil em sua Constituição e também por convenções
da Organização Internacional do Trabalho) carregue consigo grandes chances de
êxito, ao menos no curto prazo.
“Ao contrário do que diz o
governador, não queremos o MS todo pra gente. Mas com 3539 hectares habitados
por 16.000 famílias não há espaço pra mais nada, não tem onde plantar mais
alguma coisa. As áreas que um dia foram demarcadas pelo antigo SPI (Serviço de
Proteção ao Índio) já estão todas lotadas. A FUNAI demarcou mais 12, todas já
lotadas. E ainda por cima cercadas pelo agronegócio”, explica Ládio.
Dessa forma, depreende-se que não
é sem alguma “racionalidade” que os fazendeiros intensificaram sua ofensiva
antiindígena nos anos Lula/Dilma. Noves fora a milonga governista, as medidas
práticas saídas de Brasília vão no claro sentido de incentivar os monocultivos
e a total e desbragada exploração capitalista dos bens naturais.
A recente destruição via
parlamentar do Código Florestal apenas escancara o caminho tomado pelo governo
autointitulado “democrático-popular”. Com isso, não se pode colocar somente na
conta de políticos, magistrados e fazendeiros locais a atual barbárie,
representada por diversos cercos a aldeias indígenas em todo o estado, o que
denota uma coordenada estratégia política, certamente bem calculada e amparada
nos bastidores da República.
“Não tem mais Cerrado, Caatinga,
mata alta... Estão acabando com tudo. Não temos mais as plantas medicinais que
existiam aqui, por exemplo, pois pra onde se olha é um mar de cana. Eles
derrubam tudo mesmo, cada árvore, dizendo que é por causa do veneno jogado por
avião nos monocultivos. E aí não tem limites de intoxicação... A água da aldeia
Takuara era cristalina; hoje está amarelada, pela poluição, agrotóxicos. Não
tem mais peixe, não dá pra caçar, os rios estão secando”, enumera Ládio.
Enquanto isso, os guarani seguem
em seu clamor por socorro e solidariedade, pois, ao contrário do homem branco
explorado, não aceita ou deseja compreender a retirada do habitat natural em
favor de um “desenvolvimento” que jamais debateram. Milênios antes dessa cunha,
já tocavam suas vidas em harmonia com a natureza com a clareza de que tais
terras são seu sustento, sendo obrigatória sua permanente preservação, através
de todas as gerações.
“Esse Código Florestal que
fizeram aí já está acabando com tudo. O cheiro da cana é insuportável. Mesmo
ficando a alguns quilômetros da cidade, quando o vento bate nessa direção todos
podem sentir, a garganta seca, pessoas passam mal... E o Lula teve a coragem de
inaugurar usina em cima de terra indígena, no caso a Usina Nova América. Esse
governo só olha o dinheiro, o lucro, esquece que existem povos e nações ali”.
Fonte: site Correio da Cidadania.
Gabriel Brito é jornalista do
Correio da Cidadania.








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