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sábado, 3 de março de 2012

Pesadelo nuclear de Fukushima não acabou

A tragédia ocorrida no Japão em 11 março de 2011 completa   um  ano, e
 colocou em evidência mais uma vez, as  grandes questões   que ainda não
 foram respondidas pela área nuclear.

 A primeira delas é  o alto  fator de  insegurança  na  operação  de  usinas
 nucleares   e  os  riscos  de  desastres   relacionados  a  vazamentos   de
 material   radioativo,  quase  que   invariavelmente   de     consequências
 dramáticas, espalhando  radioatividade  no ar, na  terra  e   na  água.    A
 segurança dos reatores nucleares, já foram seriamente abaladas com  os
 desastres de Three Mile Island (nos Estados Unidos),      Chernobyl  (na
 ex-União Soviética) e agora de Fukushima (no Japão).         Com outras
 tecnologias para produzir eletricidade também podem  ocorrer  acidentes
 (como incêndios  ou   ruptura  de  barragens  em reservatórios  de usinas
 hidroelétricas), mas    os    acidentes  nucleares, devido  à   liberação   de
 radiação, são   infinitamente  mais  perigosos  à  vida humana/animal   e a
 natureza.Este último no Japão, mostrou que mesmo em um país altamente
 desenvolvido e bem  preparado  tecnologicamente,  com  nível   científico
 elevado de seus   especialistas, desastres  e  falhas  tecnológicas  podem
 acontecer. Os riscos de acidentes nucleares existem e quando acontecem
 são  devastadores.      Daí para evitar este risco o caminho é não instalar
 estas usinas.


 Outra questão de carater econômico   é   o  fato da eletricidade  nuclear
 ser mais cara que outras formas de   produzir  eletricidade.     A geração
 nucleoelétrica é uma tecnologia complexa e cara, e  que fica ainda  mais
 cara e deixa de ser   competitiva em relação a   outras  fontes de energia
 devido aos gastos para melhorar o desempenho e a segurança das usinas.
 De modo geral, somente empresas estatais constroem reatores nucleares,
 ou empresas privadas com fortes subsídios governamentais.    E aí esta o
 “nó”   para  esta   indústria   que   depende   enormemente   de   altos
 investimentos vindo dos cofres públicos.     No Brasil um reator de 1.300
 MW tem seu custo inicial avaliado em 10 bilhões de reais.

 E    finalmente  a questão  não  resolvida  de  armazenamento    do “lixo
 nuclear”. Nenhum país conseguiu até hoje equacionar definitivamente o
 problema da destinação dos resíduos perigosos (altamente radioativos)
 produzidos nas   reações nucleares,   que   em    geral se acumulam nas
 próprias usinas (como em Angra 1 e 2; e projetada para Angra 3). Estes
 residuos continuam ativos por milhares de anos, criando assim também
 um problema  ético, pois a   geração presente se beneficia dos serviços
 prestados pela eletricidade,   e acabam legando as gerações futuras  os
 residuos radioativos.

 Diante das evidências,  tristemente constatadas em Fukushima no ano
 passado envolvendo  a    emissão de material radioativo para   o meio
 ambiente, provocando   a retirada de mais de 100 mil pessoas, ainda
 resta muito a fazer para acabar de vez com esta tragédia.  O chamado
 programa de descontaminação  iniciado recentemente, prevê reabilitar
 uma área  de  20.000 km2  da   região mais   exposta  a precipitação
 radioativa, e assim possibilitar o retorno das  pessoas que de lá foram
 retiradas. Serão liberados pelo governo japones 13 bilhões de dólares
 para esta finalidade.       Estima-se que no caso dos reatores 1,2 e 3 o
 combustivel fundido será retirado em prazo próximo a 25 anos, e que
 somente depois, estas unidades serão desmanteladas (descomissionadas),
 o que deverá levar mais   15 anos.    Ou seja as unidades da central de
 Fukushima Daiichi somente se tornarão um mausoleu definitivo para a
 posteridade em 2052. Lembrando que todo este trabalho ao longo dos
 próximos 40 anos   será realizado   na   maioria  por    operários    que
 trabalharão em ambiente de alta radioatividade.

 A catástrofe em territorio japones foi um grande exemplo/aviso para o
 mundo, contribuindo efetivamente para o aumeto da desconfiança na
 industria nuclear. Como consequência aumentou a rejeição da opinião
 pública global ao uso da energia nuclear, e  vários países entenderam
 este alarme e anunciaram o cancelamento dos seus programas
 nucleoelétricos. Pesquisas de opinião pública realizadas em paises que
 já tem usinas nucleares, o Brasil incluído, indicaram que 69% dos
 entrevistados rejeitam a construção de novas usinas. No Brasil 79% dos
 entrevistados dizem se opor a construção destas usinas.

 Não há, portanto, razões para investir mais em energia nuclear no
 Brasil. Para garantir a segurança energética o país dispõe de recursos
 renováveis abundantes e diversos que podem atender a uma demanda
 eficientizada, sem desperdicios e com geração descentralizada, além da
 complementariedade entre as diversas fontes energéticas.

Heitor Scalambrini Costa
 Professor da Universidade Federal de Pernambuco

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