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domingo, 14 de agosto de 2011

Quando David Cameron partia vitrinas.



Na bela foto ao lado encontramos alguns espécimes raros. Os impecáveis e dignos representantes da “elite” inglesa. A “nata” da sociedade- como disse certa ocasião um humilde e pacato interlocutor, quando indagado sobre qual a classe social que ele então apontaria e destinaria como responsável pelos graves problemas e desgraças que abatiam e afligiam sua comunidade e centenas de outras pelo mundo afora. Este humilde cidadão jamais foi levado a sério naquele país então governado por uma família de “ sangue azul” como ele aprendera sentado nos bancos da escola e folheando incansavelmente livros de história. Deveras, com insistente freqüência ele repetia sua perspectiva que, todavia, parecia em vão. Mas ele não desistia pois desconfiava que, em algum lugar alguém compartilharia com seus pensamentos.

Com o passar do anos os tempos mudam e as sociedades avançam, talvez não na velocidade que desejamos e sabemos precisar, e idéias novas e concepções diferentes acabam por conseguir furar, aqui e acolá, os fortes bloqueios criados pelos defensores do status quo. “As genealogias régias são isso aí, meu caro. (..) nem mais, nem menos. A propósito você sabia que não é então somente o leite que produz a nata?” Bem, vamos a matéria em questão? Observem-na
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por Marco D'Eramo
Numa cidade inglesa um bando de jovens parte uma vitrina, foge na noite e dirige-se a correr para o jardim botânico. A polícia segue-os, apanha alguns com seus tele-móveis e põe-nos no calabouço.

O problema é que não se trata de um episódio ocorrido nestes dias. E que os jovens detidos não são desordeiros sub-proletários. Não, o episódio verificou-se há 24 anos em Oxford e os 10 jovens eram todos membros do Bullington Club, uma associação estudantil oxfordiana com 150 anos de idade, famosa pelas suas travessuras estudantis, suas bebedeiras e por considerar a vandalização de lojas e restaurantes como a melhor das distrações. Os problemas com donos de restaurantes, comerciantes e de denúncias à polícia são resolvidos com algumas indenizações generosas vindas das gordas carteiras paternais. Algumas horas antes, os dez bravos jovens fizeram-se retratar nos degraus de uma grande escada, todos em uniforme do clube, roupa de recepção a 1000 libras esterlinas (1150 euros) cada uma. Dentre eles destaca-se um jovem David Cameron e um, também imberbe, Boris Johnson.

Acontece que hoje Cameron é o primeiro-ministro conservador e Johnson é presidente conservador da Grande Londres. E que tanto um como outro trovejam contra os vândalos que destroem as propriedades privadas. Tanto um como outro defendem a linha dura, a mão de ferro. Cameron quer recorrer ao exército e censurar as redes sociais; Johnson quer aumentar os efetivos da polícia. Sem sequer a menor compreensão por quem não faz outra coisa, no fundo, senão emular os seus gestos de outrora.

Mas, evidentemente, é característico da mentalidade de um filho do papá considerar que os outros não podem – e não devem – permitir-se aquilo que lhes foi permitido, a eles, por direito de nascimento e de extração social.


David Cameron nasceu em 1966, filho de um pai agente da bolsa e de uma mãe filha de um baronete: o atual primeiro-ministro gosta de divulgar que é o descendente ilegítimo do rei Guilherme IV e da sua amante Dorotéia, e portanto que é um parente longínquo da rainha Elisabeth II. Snob típico, Cameron foi enviado aos sete anos para Heatherdown, escola elementar frequentada também pelos príncipes Andrew e Edward, escola cuja atitude de classe era sem equívocos: nos dias de excursão, as toilettes portáveis eram designadas por "Ladies", "Gentlemen" e "Chauffeurs". E quando Margaret Thatcher foi eleita primeira-ministra, a escola celebra isso com uma partida de cricket improvisada de alunos contra professores. No liceu, Cameron foi enviado à mais prestigiosa escola privada da Inglaterra, Eton (despesas anuais de escolaridade: 27 mil libras esterlinas, cerca de 31 mil euros), o cadinho da classe dominante (Boris Johnson também foi seu colega de classe em Eton): é divertido que na Grã-Bretanha as escolas privadas sejam chamadas de escolas públicas (public schools). Ali o jovem Cameron foi surpreendido em vias de colar e, como punição, teve de copiar 500 linhas de latim. Depois de Eton seguiu-se, naturalmente, a Universidade de Oxford e seu clube, o Bullington. Como perfeito snob, Cameron casou-se depois com Samantha Gwendoline Sheffield, cujo pai é um baronete proprietário de terras e cujo padrinho é visconde. Samantha Gwendolina trabalha na célebre casa de produtos de luxo Smyrne, da Bond Street, e recebeu o prêmio de Melhor Desenhista de Acessórios concedido pelo British Glamour Magazine.

Quando se recuperam das suas asneiras estudantis, os filhos do papá geralmente fazem uma bela carreira: Boris Johnson tornou-se diretor do Spectator (ainda que a sua carreira cambaleie com as suas aventuras de mulherengo inveterado, apesar de casado). Cameron tornou-se diretor de Assuntos Corporativos na Carlton Communication, uma sociedade de media absorvida a seguir pela Granada plc para constituir a ITV plc.

Em 2006, quando Cameron vence o congresso Tory e torna-se líder do partido conservador, tem apenas 38 anos. E é muito naturalmente que, no governo sombra que forma (o primeiro-ministro na época era Tony Blair), três dos membros são antigos alunos de Eton (Old Etonians). Mas no grupo dos seus colaboradores mais próximos, pelo menos 15 são Old Etonians. E passa-se o mesmo quando, em Maio de 2010, Cameron ganha (pela metade) as eleições e torna-se primeiro-ministro à testa de uma coligação com os neoliberais dirigidos por Nick Clegg: também aqui o núcleo duro do governo é constituído por aristocratas, etonianos ou oxfordianos, como o atual o ministro da Economia George Gideon Osborne, também ele nobre, herdeiro do baronato Osborne, também ele diplomado em Oxford, e também ele, é claro, antigo membro do Club Bullington.

Como se dizia outrora: o bom sangue não mente. A classe (social) tão pouco.

O original encontra-se em www.ilmanifesto.it/... , a versão em francês em
http://www.legrandsoir.info/quand-david-cassait-les-vitrines-il-manifesto.html

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