Pages

Subscribe:

sábado, 14 de junho de 2014

Colômbia: posição das FARC sobre o segundo turno das eleições colombianas

“Não se trata de escolher entre a guerra representada por Zuluaga e a paz encarnada por Santos. É claro que qualquer dos dois significará a guerra ”.

"Trata-se de escolher entre a continuidade imóvel das políticas de despojo e violência que representam os dois candidatos, e a possibilidade de imprimir mudanças urgentes e profundas

Timoshenko

No domingo, dia 15 de junho, ocorrerá o segundo turno das eleições para Presidência da República, que se definirá entre o candidato do Centro Democrático, Oscar Iván Zuluaga, e o candidato da Unidade Nacional, o atual Presidente Juan Manuel Santos. Diversos meios de comunicação e analistas concordam que nesse dia os colombianos se encarregarão de escolher entre a guerra e a paz.
Em grande medida, tal afirmação tem origem nas palavras pronunciadas pelo Presidente Santos, ante seus seguidores, uma vez que teve conhecimento dos resultados desfavoráveis no primeiro turno. Com um tom enérgico, anunciou que a campanha iniciada a partir desse momento aconteceria entre aqueles que se empenhavam em continuar a guerra e os que apostavam na paz. Desde então, comentaristas e imprensa começaram a difusão da matriz midiática, segundo a qual o que será definido nas urnas é, nem mais nem menos, a continuidade ou não do processo de diálogos que ocorre atualmente em Havana.

Falso plebiscito

Daí a disputa eleitoral, a celebrar-se em 15 de junho, ter adquirido o caráter de um plebiscito, que definirá se a maioria dos colombianos prefere a continuidade do conflito armado, neste caso representado pelo candidato Zuluaga, ou o seu breve término, por conta da reeleição de Santos. Achamos conveniente advertir que tal escolha não corresponde à verdade. O plebiscito mencionado não é mais que uma farsa, um cenário midiático que pretende transferir à imensa maioria de colombianos, a responsabilidade de uma guerra da qual os únicos responsáveis são as duas facções políticas oligárquicas e violentas que disputam hoje o controle do Estado na Colômbia.

A diferença entre Santos e Zuluaga

Basta recordar que o Presidente Santos foi o principal Ministro do segundo governo de Álvaro Uribe Vélez, que foi ele quem anunciou orgulhosamente ao país o ataque de 8 de março de 2008, em Sucumbíos, que não pode fugir de sua responsabilidade pelos crimes condenáveis denominados falsos positivos, que foi ele quem, no momento de comunicar a morte do Comandante Jorge Briceño, ordenou furioso a rendição e entrega das FARC, que foi ele quem ordenou o assassinato do Comandante Alfonso Cano enquanto trocavam mensagens sobre um possível processo de conversação, e que, inclusive, reconheceu ter chorado de felicidade ao receber a notícia. Mal pode apresentar-se como o homem da paz.


Inclusive, poderíamos ir mais longe. Seu atual chefe de campanha, César Gaviria Trujillo, o Presidente que submeteu o país às políticas neoliberais impostas pelas entidades multilaterais de crédito, o mesmo que pôs fim ao processo da Casa Verde com um ataque traiçoeiro, o mesmo personagem que colocou fim às conversações de paz de Tlaxcala com o conjunto da Coordenadoria Guerrilheira Simón Bolívar, o mandatário que decretou a guerra integral, pensando colocar fim à existência das guerrilhas na Colômbia em um ano e meio, designou Juan Manuel Santos como seu Ministro de Comércio Exterior, para que fosse ele quem começasse a concretizar e implantar a chamada abertura econômica, entregando ao capital estrangeiro grande parte do patrimônio nacional e retirando dos trabalhadores suas conquistas de quase um século de lutas.

Também lembramos Juan Manuel Santos como Ministro da Fazenda do governo de Andrés Pastrana, anunciando ao povo colombiano um longo período de suor e lágrimas, no momento em que destinava bilhões de pesos do tesouro público para salvar o setor financeiro mergulhado na crise gerada por sua própria corrupção. Não é de agora que o país conhece Juan Manuel Santos como agente do capital transnacional e importante funcionário de governos belicistas. Ele desempenhou importante papel em todas as últimas administrações públicas de caráter nacional, sejam eles conservadores, liberais ou uribistas, sempre desfrutando das benesses do poder, servindo aos interesses das classes mais poderosas, e desprezando e reprimindo os setores populares afetados por essas políticas.


As contradições de Juan Manuel Santos e o ex-Presidente Uribe não são da profundidade apresentada. Os dois guardam identidade e fidelidade absoluta com o neoliberalismo econômico e a doutrina de guerra dominante, inclinam suas cabeças e servem com devoção aos interesses econômicos e políticos da América do Norte, experimentam igual repugnância para os processos democratizantes e renovadores que ocorrem em vários países sul-americanos e, sobretudo, conferem o mesmo tratamento violento às aspirações das grandes maiorias marginalizadas do país. Os dois representam poderosos setores do capital e da terra.


O que os diferencia é o enfoque com que assumem a realidade do conflito interno colombiano, pois, enquanto o primeiro deles, hoje magistralmente interpretado por seu candidato Oscar Iván Zuluaga, decididamente opta pela intolerância absoluta e a solução exclusiva pela força, o segundo aposta, primeiramente, em conseguir a rendição da insurgência na Mesa de Havana, reservando-se paralelamente o direito de esmagá-la pela força. As posições do uribismo, radicalmente sectárias na defesa dos setores econômicos e políticos relacionados com o paramilitarismo, assim como na intangibilidade dos setores militaristas mais cruelmente comprometidos com a violação dos direitos humanos, o conduziram a travar uma luta acirrada com o governo de Juan Manuel Santos, precisando enfrentar as pressões do grupo pecuarista e dos empresários agroindustriais beneficiários da violência.


O fato de Oscar Iván Zuluaga não se importar em aparecer como defensor da guerra, não faz de Juan Manuel Santos um homem da paz. Assim como seu rival na disputa eleitoral, Santos menospreza qualquer reforma de amplo conteúdo democrático ou que implique na menor mudança na desigual distribuição da terra e da riqueza no país. Em sua recente campanha, preocupou-se em tranquilizar os setores poderosos, esclarecendo que nenhum de seus privilégios ou interesses estava em risco na Mesa de Havana, com a mesma ênfase com que procurou convencer as forças armadas e setores militaristas de que nem um só peso do orçamento militar, do gasto de guerra, das aquisições planejadas ou compromissos adquiridos, nem sequer o contingente ou os planos de investimento sofreriam a menor alteração na eventual assinatura final de um acordo com as FARC em Havana. É claro que a paz, para os setores que representa, implica necessariamente que tudo continue igual. Que não se toquem nas causas que originaram o confronto do último meio século na Colômbia.

Enquanto o Presidente Santos corria o país tranquilizando os donos da fortuna e as camadas beneficiárias da guerra, não escutamos uma só palavra de seus lábios que significasse algum estímulo esperançoso ou que tivesse a aptidão de inspirar confiança nos setores populares afetados pelas políticas de seu governo. Se esteve em Buenaventura foi para dar prosseguimento a seus conhecidos anúncios de mais oferta de trabalho, que garanta de modo absoluto as operações do lucrativo setor portuário ligado ao grande comércio exterior. Nada para as negritudes miseráveis ou os pescadores assediados pela violência atroz que os removem das áreas da cidade, onde se projeta a ampliação das atividades exportadoras. Com posição idêntica no resto do país, era lógico que a votação a seu favor ficaria seriamente prejudicada.

Ninguém ganhou

Não se pode dizer que Oscar Iván Zuluaga ganhou. Simplemente, como beneficiário da máquina de terror do uribismo, da decadência moral de seus apoiadores políticos e de toda a podridão alimentada pelos oito anos contínuos de governo de seu mentor, ocupou o primeiro lugar nas votações, como consequência do extraordinário desprestígio do governo de Juan Manuel Santos, que não foi isento do clientelismo, da marmelada e da corrupção própria do regime político colombiano. O elevado índice de abstenção, ao qual cabe somar também o voto em branco, coloca em voga a ilegitimidade, a descrença e a falta de apoio real por parte do povo colombiano a todos os candidatos oficiais.

Nessas condições, é preciso dizer, cabe destacar e valorizar a votação obtida pela esquerda, representada pela aliança entre o Polo Democrático e a União Patriótica. Não cabe dúvida que as duas mulheres que postularam seu nome à Presidência e à Vice-Presidência capitalizaram, em meio à putrefação do regime eleitoral e do debate político, uma poderosa corrente de opinião independente, consciente, limpa e livre. Ninguém que tenha escolhido votar nessa opção o fez movido pela ambição pessoal ou pela esperança de regalias. Num país insuflado diariamente pelo ódio e pela polarização promovidos pela ultradireita, adquire um enorme valor o posicionamento dessa reserva moral e política de corte autenticamente popular. Pode ser que sua pureza moral se mantenha intacta ante os cantos da sereia de César Gaviria.

Marta Lucía Ramírez, candidata oficial do Partido Conservador, coloca abertamente em evidência o caráter oportunista e negociador de sua corrente política. Seu apoio pode ir para qualquer um dos dois candidatos finalistas, o qual dependerá tão somente das garantias e regalias econômicas e políticas oferecidas por cada um. É a velha tática de seu partido, corrupto e alheio a qualquer princípio, graças a qual prosperou em todos os últimos governos. Sua virtude está à venda pelo melhor preço e isso basta para fazê-la ainda pior que qualquer deles. Nem sequer vale a pena falar de Peñalosa. O arquipélago que o rodeou já começou sua dispersão.

O verdadeiro dilema e as opções no segundo turno

Assim que os colombianos, sim, estamos diante de um verdadeiro dilema. Porém, não o de escolher entre a guerra representada por Oscar Iván Zuluaga e a paz encarnada por Juan Manuel Santos. É claro que qualquer um deles dois significará a guerra. Com Zuluaga é evidente o assunto. Para julgar Santos basta observar sua insistência de que não pactuará nenhum cessar-fogo apesar da existência dos diálogos em Havana e de seus avanços, sua ordem permanente de aumentar o confronto e os ataques até conseguir a assinatura da paz na Mesa, sua repetida negativa em pactuar qualquer reforma econômica, política, militar ou social, sua incessante cantiga de que nada está acordado até que tudo esteja acordado, suas mensagens tranquilizadoras aos poderes estabelecidos. A verdadeira encruzilhada tem uma natureza distinta.

Trata-se de escolher entre a continuidade imóvel das políticas de despojo e violência que representam os dois candidatos, e a possibilidade de imprimir mudanças urgentes e profundas na institucionalidade e na sociedade colombianas. Para o primeiro, basta votar em qualquer uma das candidaturas apresentadas, enquanto para o segundo, a gama de opções é mais ampla.

A primeira delas seria a espontânea e maciça votação em branco, capaz de deslegitimar, inclusive juridicamente, as duas opções militaristas e neoliberais. Não existe dúvida de que uma surpreendente votação que superasse os sufrágios de ambas as candidaturas seria capaz de gerar um terremoto político no país. Contra ela, jogariam o curto prazo para promovê-la, da mesma forma que o caráter amorfo, desorganizado, espontâneo e difuso de sua promoção, que teria a dificuldade de expressar-se, conseguindo a vitória numa opção política medianamente definida e unitária. Nesse caso, precisamente, a tarefa consiste em trabalhá-la.

Em segundo lugar, poderia considerar-se um urgente reagrupamento de todos os setores insatisfeitos e de oposição, ao qual se uniria, de maneira firme, o conjunto dos movimentos sociais enfrentando o governo de Santos, numa poderosa coalizão com a esquerda política tão bem posicionada no recente primeiro turno, com o apoio político do conjunto da insurgência, em torno de consignas simples como a solução política ao conflito interno, o cessar-fogo, a assembleia nacional constituinte, o contundente repúdio a todas as formas de politicagem tradicional e pelas reformas urgentes de caráter social, com o propósito de enfrentar, de maneira decidida, com uma força sólida de massas o novo governo, que será empossado em 7 de agosto.

Não há dúvida de que esse governo, qualquer que seja, por baixo de sua cobertura institucional ou legal, assumirá o poder em condições de debilidade política, com sérias contradições com o grupo do candidato perdedor. Uma forte agitação social e política poderia produzir consequências inesperadas, que fossem suficientes para derrotá-lo. Sim, poderiam contar com condições favoráveis para o crescimento de um verdadeiro movimento alternativo capaz, em curto ou médio prazo, de precipitar, de modo ou de outro, mudanças, fundamentais na vida nacional, inclusive a paz.

Uma fórmula a ser considerada seria, formada essa coalizão, pactuar com um dos candidatos, de maneira seria, um programa progressista de mudanças. Mesmo que a ideia possa soar atraente, parece nascer mais do desejo que de possibilidades reais. É preciso analisar o caráter precipitado da coalizão e do próprio pacto que resultaria na parceria, além da confiança e credibilidade que pode envolver tal aliança com inimigos declarados do povo colombiano.

A razão da Mesa de Diálogos

E o que dizer da Mesa? Fundamentalmente, é preciso considerar que ela tem toda sua importância na medida em que possibilite, viabilize ou catalise um grande movimento nacional pelas mudanças básicas. O único Acordo que, como revolucionários, podemos aspirar em assinar nela, é aquele que conte com o respaldo desse grande movimento popular que, por sua vez, impeça o seu desmonte. Nos demais casos, poderíamos viver realidades intoleráveis. Um assunto para considerar seriamente.


Montanhas da Colômbia, 27 de maio de 2014.


fonte:   somos todos palestinos

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Licença Creative Commons
Este obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 2.5 Brasil.