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sábado, 1 de outubro de 2011

"É a chegada do neoliberalismo ao movimento sindical", diz Olívio Dutra.


A greve dos bancários que iniciou-se nesta terça-feira, prossegue. Segundo o balanço apresentado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro ( Contraf-CUT), resultado de uma base de dados enviados pelos sindicatos até as 18h30, o movimento conseguiu fechar aproximadamente 7680 agências, bem como centros de administração de bancos privados. Os dados são desta última quinta-feira 29.09.

No Rio Grande do Sul, com relação as estratégias e “ evolução” do movimento sindical, o ex governador Olívio Dutra, sobre o mais recente fenômeno identificado em expressivos setores do movimento sindical do Brasil concedeu rápida entrevista e fala sobre essas “práticas”.

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"É a chegada do neoliberalismo ao movimento sindical", diz Olívio Dutra


Na saída de uma aula de latim na UFRGS, o ex-governador Olívio Dutra disse estar preocupado com a contratação de pessoas para distribuir material em porta de banco, na mobilização da greve da categoria. Em 1979, Olívio presidia o sindicato dos bancários da Capital e acabou preso por liderar a paralisação.

Ainda em contato com suas raízes – o ex-governador relatou que esteve nesta semana no sindicato –, Olívio aponta o que considera o “descolamento do sindicato de sua base”.

A entrevista é publicada pelo jornal Zero Hora, 01-10-2011.

Eis a entrevista.

Como o senhor analisa a contratação de terceirizados para reforçar a greve?

É uma mudança que mostra um pragmatismo e a tal de governabilidade contaminando a ação consciente das categorias para reivindicar objetiva e presencialmente seus direitos. Não vi em nenhuma reunião ou assembleia isso ser discutido. É algo estranho, para dizer o mínimo. No fundo, mostra também uma mudança da relação entre a entidade e a base. Evidentemente que há argumentos de que o patronato, os banqueiros, perseguem quem se apresente na porta do banco em que trabalha com cartazes. Isso pode levar a demissão, ao desemprego, mas esse é um risco que tem quem vai para luta. Essa não é a melhor forma. Poderia deslocar bancários de uma agência de um bairro para agências de outro bairro. Os piquetes, eu lembro bem, eram exatamente para isso.

É assim que se fazia na sua época no sindicato?

Exatamente. Em tal bairro havia companheiros que trabalhavam em outro bairro. Dava uma certa proteção. Não impedia que houvesse perseguição, mas uma greve é um processo de negociação em que os trabalhadores, que não têm os instrumentos que o patronato têm, precisam ter unidade e se impor coletivamente. Se não estão fazendo isso por si mesmos, debilita o movimento e joga para o patronato argumentos para que não encare a representação do sindicato com a força que deveria ter. É uma questão séria, que merece ser discutida, até porque não é só na minha categoria que isso vem acontecendo.

Que efeito tem esse tipo de iniciativa no movimento sindical?

Esse procedimento é deseducativo e demonstra a desmobilização da categoria. As razões da greve existem, são reais, mas essa prática mostra um descolamento do sindicato da sua base. É a chegada do neoliberalismo ao movimento sindical. Tudo se terceiriza, tudo se compra e se paga, até a militância. Não estou pregando que o ideal era o tipo de luta que se fazia há 20 ou 30 anos, mas acho que há um fio condutor das lutas sociais, que certamente não passa por essa prática de contratar pessoas terceirizadas. Isso merece uma reflexão.

Sindicato defende uso de grevistas de aluguel

Sem novas propostas dos bancos, a paralisação dos trabalhadores de bancos continua por tempo indeterminado, afirmou na sexta-feira o presidente do sindicato de Porto Alegre e região (SindBancários), Mauro Salles.

Pessoas contratadas para colar cartazes, distribuir lanches e material de apoio seguem em atividade, conforme Salles.

— Eles estão ali ajudando na logística da greve, não estão impedindo o acesso aos bancos, não estão fazendo nada ilegal — sustenta.

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