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sexta-feira, 5 de julho de 2013

A guerra dos drones



por Javier Valenzuela
Tal como se imagina que fazem os chefes mafiosos, o “Nobel da Paz” Barack Obama tem uma reunião semanal em que decide quem vai ser assassinado a seguir. Essas execuções extrajudiciais são levadas a cabo pela mais sofisticada tecnologia, e comandadas à distância. O mesmo sistema monstruoso que tem o mundo inteiro sob escuta tem igualmente o mundo inteiro como alvo, se Obama assim o entender. É um criminoso de guerra, como os seus antecessores.


Barack Obama dirige pessoalmente a última das guerras norte-americanas, uma guerra que não foi declarada e que se trava nos territórios do Iémen, Somália e Paquistão. Não combatem nela soldados estado-unidenses de carne e osso, o seu lugar é ocupado por uns pássaros metálicos com licença para matar chamados drones. São os Predator e Reaper, fabricados por General Atomics na Califórnia, e são armados com mísseis Hellfire, produzidos por Lockheed Martin no Alabama.

 Os ataques norte-americanos com aviões não tripulados por um ser humano multiplicaram-se nos meses de Abril e Maio, confirmando o entusiasmo crescente de Obama por esta forma de combate, a primeira verdadeiramente própria do século XXI. É um combate sem quartel, no qual o bando mais poderoso não arrisca a sua gente, substituída por letais robots teledirigidos.

 O objectivo desses ataques são supostos dirigentes e militantes de Al Qaeda e grupos jihadistas associados. Trata-se de os exterminar fisicamente antes que actuem, e assim a guerra dos drones de Obama combina o carácter “preventivo” das aventuras bélicas de George W. Bush com o direito que Israel sempre outorgou a si próprio de efectuar execuções extrajudiciais em qualquer parte do mundo.

 Esta semana, Jo Becker e Scott Shane publicaram em The New York Times uma extraordinária informação que descreve como Obama autoriza pessoalmente quais serão os alvos das acções dos drones no Iémen, Somália e Paquistão. Isso passa-se nas reuniões da equipa antiterrorista da Casa Branca que se efectuam semanalmente na sala de crise (Situation Room). Nelas é apresentada ao presidente a lista dos condenados à morte (Kill List) que foram localizados, e este, após estudá-la caso a caso, dá-lhe ou não luz verde.

 Obama encontrou nos drones o instrumento que lhe permite mostrar-se duro e eficaz na guerra contra Al Qaeda que Bush declarou após o 11-S, ao mesmo tempo que evita muitos dos ninhos de vespa em que o seu predecessor se meteu, como relata Daniel Klaidman no seu recente livro Kill or Capture: The War on Terror and the Soul of the Obama Presidency. Obama, recorde-se, opôs-se à invasão do Iraque e aos sequestros, torturas e campos de concentração como Guantánamo que caracterizaram a época de Bush. Com os Predator e Reaper substitui este último por execuções. “Os drones”, escrevem Becker e Shame, “substituíram Guantánamo”.

 Não se fazem prisioneiros, não se arriscam vidas norte-americanas e o facto de actuar com comando à distância anestesia a possível má consciência: é o ideal para Obama. Nos seus primeiros três anos na Casa Branca, teria aprovado pessoalmente 268 ataques com drones, cinco vezes mais do que nos oito anos de Bush, segundo informa Christopher Griffin numa reportagem publicada por Rolling Stone: The Rise of de Killer Drones: How America goes to War in Secret (O ascenso dos drones assassinos: como os Estados Unidos fazem a guerra em segredo).

 Milhares de pessoas teriam morrido nesses ataques, incluindo não poucos civis. A guerra secreta de Obama, escreve Griffin, “pressupõe a maior ofensiva aérea não tripulada por seres humanos jamais realizada na história militar: nunca tão poucos tinham morto tantos por controlo remoto”.
 Os drones são populares nos Estados Unidos, do mesmo modo que o é a política antiterrorista de Obama que, entre outras coisas, conseguiu matar Bin Laden em 2011, embora por meio de uma acção de comandos clássica. Não obstante, sectores minoritários defensores da legalidade democrática e dos direitos humanos colocam-lhe objecções. O braço direito de Obama nesta matéria, John Brennan, um veterano da CIA, tem sido apelidado de Czar dos Assassinos.

 Para começar, estas execuções são preventivas – antes de que o delito tenha sido cometido - e sumárias – não têm o menor rasto de intervenção judicial. E já incluíram, no passado 30 de Setembro no Iémen, um cidadão norte-americano, Anwar Al Awlaki, um pregador jihadista supostamente vinculado a Al Qaeda.
 “Este programa apoia-se na legitimidade pessoal do presidente”, informam Becker e Shame após terem consultado especialistas tanto de dentro como de fora do Governo norte-americano. Ou seja, as execuções à distância são legais porque o presidente assim o decide.

 E depois surge a questão das eufemisticamente chamadas “baixas colaterais”. Alguns ataques com drones causaram dezenas de mortes de civis, mulheres e crianças incluídos, como o ataque que abateu Saleh Mohammed al-Anbouri no Iémen em Dezembro de 2009. As vítimas tiveram que ser enterradas em valas comuns porque os seus corpos tinham ficado despedaçados e irreconhecíveis.

 Em salom.com, Jefferson Morley publicou uma reportagem, O rosto dos danos colaterais, onde conta a história de Fátima, uma menina morta na noite de 21 de Maio de 2010 quando uma vaga de mísseis Hellfire triturou um grupo de casas numa aldeia de montanha no Uaziristão setentrional, na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. A operação, dirigida e executada pela CIA como todas as deste género, tinha por objectivo abater um egípcio chamado Yazid ou Said al Masri, suposto dirigente de Al Qaeda. Mas Fátima não tinha nada que ver com ele, era apenas uma habitante da aldeia.

 As autoridades de Paquistão e Iémen, aliadas em teoria dos Estados Unidos face a Al Qaeda, têm protestado tanto pela violação flagrante das suas soberanias como pela morte de muita gente que não tinha nada a ver com este assunto. Sentem, para além disso, que esta guerra secreta os desestabiliza e dá argumentos aos jihadistas. Só no Paquistão, segundo informa Seumas Milne em The Guardian, os drones teriam morto umas 3.000 pessoas, um terço das quais eram claramente civis.

 Em 2011, a Força Aérea dos Estados Unidos treinou mais operadores de drones (os indivíduos que os dirigem a partir de uma base, armados com um joystick e sentados frente a um écran de computador) do que verdadeiros pilotos de caças e bombardeiros.

 A aposta na guerra tecnológica foi adoptada pelo Pentágono depois do desastre do Vietnam. No futuro, as guerras imperiais de Estados Unidos ir-se-iam travando cada vez mais com menor risco para os seus soldados. O modelo a seguir formulou-o Hollywood com Star Wars. Cientistas e fabricantes de armas deviam preparar um exército de robots que substituísse a tradicional carne para canhão.

 Desenhados originalmente para a espionagem, a vigilância e o reconhecimento, os drones começaram a ser usados massivamente pelos Estados Unidos para identificar e matar objectivos humanos após o 11-S (as guerras iugoslavas tinham-lhes servido de terreno de ensaio). Os Predator e seus sucessores, os ainda mais mortíferos Reaper, foram ganhando protagonismo nas guerras de Afeganistão e Iraque e nas operações contra Al Qaeda em Iémen e Somália. A partir de 2008 começaram a actuar também no Paquistão.

 Os drones atingem o custo de uns 13 milhões de dólares por unidade e, segundo Becker e Shane, “converteram-se num símbolo provocatório do poder de Estados Unidos”. O Pentágono conta com uns 19.000 para tarefas de espionagem ou de combate, mas a CIA também dispõe da sua própria frota. De facto, é este serviço de espionagem, cada vez mais convertido numa organização paramilitar, quem conduz a actual guerra secreta de Obama.

Madrid, 3 JUN 2012

fonte: ODiario.info   foto: internet

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