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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Processar manifestantes com Leis de Segurança e de Organização Criminosa é violência antidemocrática


[Nota da ONG Justiça Global] Justiça Global, Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH) e o Centro de Assessoria Popular condenam a tentativa dos poderes Executivo e Legislativo em enquadrar manifestantes no crime de associação criminosa.

A polícia civil do Rio de Janeiro e de São Paulo anunciaram que investigarão as ações realizadas nas manifestações, por partidários da tática black bloc, e irão enquadrá-los em organização criminosa. A cúpula de segurança paulista ainda liberou o uso de balas de borracha pela polícia nos protestos.

Entendemos que esse processo de endurecimento penal e repressivo fortalece a criminalização dos manifestantes e dos movimentos sociais na luta por direitos. Essa política estatal é casada com o crescimento de intervenções militares nas áreas empobrecidas (as UPPs no Rio) , o encarceramento em massa de jovens e negros, a deslegitimação das lutas sociais e até a sistemática violação dos direitos humanos e das legislações tanto nacionais, quanto internacionais, pelo próprio Estado brasileiro. Esse conjunto de iniciativas visa neutralizar as reivindicações populares.

A Lei de Organização Criminosa foi sancionada pela presidenta Dilma Rousseff e entrou em vigor a partir de setembro deste ano. Segundo o texto da Lei nº 12.850/2013, "considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro) ou mais pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais cujas penas máximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou que sejam de caráter transnacional". A pena prevista é de 8 (oito) anos, podendo ser estendida. A lei é flagrantemente inconstitucional. Sua redação ignora direitos já conquistados na Constituição de 1988 e autoriza o Estado a interceptar ligações telefônicas, ter acesso sem autorização judicial a dados de empresas telefônicas, instituições financeiras, provedores de internet e administradoras de cartão de crédito, além de prever que policiais possam se infiltrar em atividade de investigação.

O direito à reunião e organização política são garantidos constitucionalmente. Mesmo assim, é sabido que o Estado brasileiro compactua com a espionagem de movimentos sociais. Em 2012, integrantes do Movimento Xingu Vivo perceberam que havia um infiltrado entre eles. Descobriram também que existia até envolvimento da Abin na ação. Em setembro de 2013, a Agência Pública fez uma grande reportagem sobre a Vale. A empresa espiona os movimentos, funcionários e até jornalistas a fim de defender seus interesses. O caso só veio à tona porque um ex-gerente de segurança da companhia denunciou o esquema. Esses exemplos não são fatos isolados, o Brasil já foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA por grampos ilegais a trabalhadores rurais ligados ao MST.

A estratégia de criminalizar manifestantes no Rio de Janeiro, por meio da Lei de Organização Criminosa, aos quais autoridades da polícia civil e de justiça criminal, com o apoio do governador Sérgio Cabral, atribuem pertencer aos Black Blocs e Anonymous, é mais um preocupante uso de instrumento legal criado em conflito com a ordem constitucional, como a Lei Geral da Copa e a utilização da Lei de Segurança Nacional para processar manifestantes em São Paulo.

Nas manifestações de 07/10/2013 no Rio e em São Paulo, em apoio à greve dos professores e contra a violência policial, 29 pessoas foram detidas e duas presas. Os manifestantes tomaram às ruas reivindicando um plano de carreira decente para os profissionais da rede pública de educação. Em São Paulo, um casal foi acusado de danificar um carro da polícia civil. A estudante Luana Bernardo Lopes, 19 anos, e o pintor e artista plástico Humberto Caporalli, 24 anos, foram absurdamente enquadrados na Lei de Segurança Nacional (Lei nº 7.170/1983). Essa legislação possui conteúdo contrário à democracia e às garantias fundamentais.

A própria utilização da categoria "subversivos", presente na lei, e a sua utilização recente contra militantes do MST(2008), revela seu sentido de criminalização dos movimentos sociais. Trata-se de uma lei de exceção, aprovada no contexto da ordem de arbítrios da ditadura militar-civil de 1964, e ainda hoje invocada para legitimar a repressão política. Impedir a organização e punir os contrários às políticas estatais com uma lei forjada durante regime autoritário significa silenciar movimentos e defensores de direitos humanos.

A Justiça Global, o Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH) e o Centro de Assessoria Jurídica Popular Mariana Criola são contrários e denunciam o uso da Lei de Segurança Nacional e da Lei de Organização Criminosa em repressão aos movimentos sociais e qualquer pessoa que lute por direitos. Entendemos que a utilização de legislação penal específica para manifestações e organizações políticas é medida de exceção e enfraquece a democracia.

Lutar não é crime!

Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2013.

fonte: Brasil de Fato





domingo, 16 de junho de 2013

A semana em que uma nuvem de bombas cobriu o céu de SP


Quarta manifestação contra o aumento da tarifa do transporte público reuniu milhares nas ruas da capital paulista. Com um saldo de mais de 250 detidos, a escalada de repressão chegou à imprensa sob a forma de balas de borracha contra os seus jornalistas. Apesar das cenas de guerra, o governo estadual e o prefeito da cidade não cedem: a tarifa e a “ordem” serão mantidas. 

Por  Xenya Bucchioni e Tulio Bucchioni, Esquerda.net
 Xenya Bucchioni e Tulio Bucchioni - Esquerda.net
  

São Paulo - Eram cinco horas da tarde. Trabalhadores, estudantes, idosos e famílias ganhavam, pouco a pouco, as ruas, exercendo o direito de manifestar livremente as suas opiniões em um ato contra o aumento da tarifa do transporte público de São Paulo. Juntos, somavam 15 mil pessoas – algo raro para um país pouco habituado às ruas, legado de seus vinte e um anos de ditadura civil-militar. Deslegitimados pela grande imprensa desde o começo das mobilizações, sob a alcunha de “baderneiros” e “vândalos”, os manifestantes gritaram em coro pela não-violência e, mesmo assim, receberam, na noite de quinta-feira, 13 de junho, um tratamento exemplar: à base de bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e muito cassetete – espetáculo promovido pela Polícia Militar e pela Rota, polícia especial subordinada à PM. O resultado de tal atuação contabiliza até o momento um saldo de mais de 250 presos, entre eles cerca de dez jornalistas.

Algumas horas antes, no início da manifestação, o major Lidio Costa Junior, do Policiamento de Trânsito da PM, já havia confessado que a situação tinha saído do controlo e advertiu: “Não nos responsabilizamos mais pelo que vai acontecer”. As palavras de Lidio tornaram-se realidade antes mesmo da concentração tomar fôlego, quando a polícia militar fazia revistas em jovens e os detinham na sequência. O motivo? Porte “ilegal” de vinagre – sim, no Brasil, andar com vinagre, agora, pode dar cadeia. Nem mesmo os jornalistas saíram imunes. Piero Locatelli, repórter da revista Carta Capital, teve o seu “artefato” confiscado e seguiu para a prisão. Há relatos de jovens presos por formação de quadrilha (crime inafiançável), fichados em presídios da capital, onde, após a nefasta noite de quinta, passam a ter um número no cadastro de criminosos – sem sequer terem sido submetidos a qualquer julgamento. Além disso, a criminalização do movimento contra o aumento repercute, também, nos bolsos: a fiança para os presos na manifestação é de inacreditáveis 20 mil reais – valor que, em uma rápida pesquisa na internet, demonstra-se incompatível com as fianças cobradas em atropelamentos culposos ou em casos de porte de arma ilegal no Brasil, entre outros exemplos.

Enraizado na história do país, o autoritarismo presenciado na capital paulista não se limita à ação policial e é, sobretudo, endossado pelas autoridades estaduais e municipais e pela grande imprensa, sendo também compartilhado por amplos setores da classe média. Um dia antes do ocorrido, no dia 12 de junho, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do partido de oposição (PSDB), elogiara o trabalho da polícia, enquanto o prefeito Fernando Haddad, do partido do governo (PT), optara por declarações de “não diálogo em situações de violência”. Apesar de supostamente atuarem em campos políticos opostos, ambos viram os seus discursos convergirem para um ponto comum: a defesa da manutenção da tarifa e da ordem contra as manifestações e o fecho de vias públicas.


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