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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

" TLCs são como butim da Guatemala para as multinacionais dos EUA e da Europa”


Leonardo Wexell Severo

Daniel Pascual Hernandez, coordenador do Comitê de Unidade Camponesa

Afirma Daniel Pascual Hernandez, coordenador geral do Comitê de Unidade Camponesa (CUC) da Guatemala, denunciando que com a assinatura dos Tratados de Livre Comércio, as embaixadas se converteram em escritórios comerciais das multinacionais. “É na presidência que está o butim de guerra, o centro das negociações das concessões, da privatização do patrimônio público”, condenou



Como o Comitê de Unidade Camponesa analisa o momento de embates no campo guatemalteco?
Temos altos índices de concentração fundiária, o que torna a luta pela terra na Guatemala bastante similar à do Brasil e do conjunto da América Latina. Do ponto de vista agrário, o capitalismo se instalou em 1871, com o café, o algodão e posteriormente a banana, matérias-primas para exportação. Esse monocultivo trouxe uma particularidade: a concentração de terra com a opressão do indígena. A lei de terras começa entregando o território ao invasor, ao colonialista, deixando cinturões para que os indígenas não se sublevassem. Houve um período de avanços, de 1944 a 1954, a década democrática, sob os governos de Juan José Arévalo e Jacobo Arbenz Guzmán, mas logo se efetiva a invasão estadunidense.

A contrarrevolução armada e financiada pela United Fruit.
A invasão se dá a partir das grandes extensões de terra que a United Fruit Company tinha na Guatemala. A CIA e os mercenários nacionais orquestraram uma contrarrevolução em 1954. Isso faz com que surja a guerrilha e o intenso processo de luta armada que vai de 1963 até 1996, quando há um novo saque, com a apropriação de terras se dá pelos altos mandos militares, que queriam ser também um poder político e econômico. Assim é que temos hoje num país pequeno, de 109 mil quilômetros quadrados, 75 a 80% da terra concentrada em mãos de 10% da população, um reduzido número de famílias descendentes de europeus. Há uma mescla de latifundiários alemães, espanhóis, alguns belgas, com sobrenomes parecidos.

E como vivem os trabalhadores destas fazendas?
Estão submetidos a uma situação característica de colonos. Vivem em condições desumanas, em moradias precárias, com falta de acesso à água, à educação e à saúde. Por não terem terra, aceitam essas lamentáveis condições. Esses trabalhadores começaram a ser expulsos, a sofrer com as demissões massivas e os deslocamentos forçados impostos pelos latifundiários bananeiros nos estados do Sul e há uns seis ou sete anos, no Norte, pelos fazendeiros da região mais próxima a Belize. Há um processo de mecanização das lavouras e de reconcentração da terra para monocultivos.

Quais os problemas pela frente?

A questão dos monocultivos salta aos olhos, assim como a lógica de construção de infraestrutura de rodovias, portos e aeroportos para servirmos à logística das economias europeias e asiáticas. Por isso a criação de um corredor de rodovias interoceânico, de um corredor seco entre os portos e aeroportos do Atlântico e do Pacífico que não leva em conta o interesse nacional. O governo está radicalizando na aplicação de todos os programas neoliberais, por meio de concessões e privatizações, e tem assinado vários tratados contrários à nossa soberania. Recentemente a Guatemala ratificou o Acordo de Associação com a União Europeia, que leva a um plano de investimentos e a um tratado comercial que subordinam completamente a nossa economia. Assim, se a América Central tem muitas nascentes, iniciam um projeto de construção de hidrelétricas, com os rios programados para serem instrumento do crescimento das multinacionais.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Guatemala: campo de provas e de extermínio dos EUA e Israel


por Leonardo Wexell Severo

Nos muros da capital guatemalteca, o clamor por Justiça. Foto: Joka Madruga

“Na Guatemala, o terror se transformou num espetáculo: soldados, comissionados e patrulheiros civis estupravam as mulheres diante dos maridos e dos filhos. O zelo anticomunista e o ódio racista se disseminaram no desempenho da contrainsurgência. As matanças eram inconcebivelmente brutais. Os soldados matavam crianças, lançando-as contra rochas na presença dos pais. Extraíam órgãos e fetos, amputavam a genitália e os membros perpetravam estupros múltiplos e em massa e queimavam vivas algumas vítimas”.

O relato extraído do livro “A revolução guatemalteca”, (Greg Grandin, Editora UNESP, 2004), descreve os pormenores da política de terrorismo de Estado promovida pelos governos dos EUA – com apoio de Israel - contra os movimentos de resistência da nação maia nos anos 70 e 80.

Vale lembrar, destaca o autor, que “as práticas ensaiadas na Guatemala – como as desestabilizações e os esquadrões da morte dirigidos por agências de inteligência profissionalizadas – propagaram-se por toda a região nas décadas subsequentes”. E ganharam o mundo, afirmamos nós, como o comprovam as invasões do Iraque e da Líbia, onde o número de mercenários superou em muito o do exército regular. O fato destas “empresas” estarem entre as principais doadoras das bilionárias campanhas eleitorais estadunidenses não é um mero detalhe. Assim como o fato do secretário de Estado norte-americano Foster Dulles, advogado/acionista da United Fruit, ter comandado a campanha - ao lado de seu irmão Allen Dulles, chefe da CIA – pela derrubada do presidente guatemalteco Jacobo Árbenz, consumada em 28 de junho de 1954. O motor do golpe que levou ao poder o coronel Castillo Armas foi a nacionalização de terras da “Frutera” e sua distribuição a camponeses pobres e a indígenas.

PROPAGANDA DE GUERRA

No momento em que o Império retoma a propaganda de guerra contra o povo sírio e seu governo, a leitura contribui para refletirmos sobre os padrões de manipulação. Uma “amnésia oficial” patrocinada pelos grandes conglomerados privados de comunicação para dissipar a responsabilidade estadunidense na deposição de governos nacionalistas como o de Árbenz. Ali, lembra Grandin, “a CIA se serviu de práticas tomadas de empréstimo à psicologia social, a Hollywood e à indústria publicitária para erodir a lealdade” e gerar aversões, numa “campanha de desinformação concertada” em favor da United Fruit, grande latifundiária e também proprietária das rodovias, ferrovias e portos do país.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Desnutrição e deseducação na Guatemala: o fruto podre “made in USA”




por Monica Fonseca Severo *

Filho de trabalhadores rurais, menino teve a escola destruída
duas vezes com apoio do governo. Foto: Leonardo Severo 

A cada dia nascem na Guatemala 1.200 crianças, das quais 1.067 sobreviverão. Pelos efeitos da desnutrição, 591 destas terão comprometida sua capacidade cognitiva e passarão fome no país exportador de alimentos

A professora das terras roubadas

Jaqueline Perez tem vinte e três anos e nos recebeu em seu local de trabalho, a sala de aulas da Finca Las Delicias, no Departamento de San Marcos, a mais de 400 quilômetros da capital da Guatemala. Na entrada do latifúndio, guarda armado com escopeta e cancela.

A Las Delícias havia sido confiscada pelo estado diante da reiterada falta de pagamento de salários e impostos. Após longa e árdua batalha judicial, a posse das terras finalmente deveria ter sido concedida aos trabalhadores, muitos deles nascidos na finca. Nas últimas etapas da transação, o atual proprietário aplicou o famoso “171”. Apresentou-se alegando disposição de pagar as dívidas trabalhistas acumuladas por longos anos. Para a “Justiça”, bastou a promessa, pois ninguém recebeu um centavo dos salários atrasados ou dos direitos subtraídos pelo sócio das transnacionais exportadoras de café. Permanecem nas mesmas condições análogas à de escravidão, nas terras em que suam de sol a sol.



Professora Jaqueline Perez mostra a biblioteca da Finca
"Las Delícias". Foto: Monica Severo

Jaqueline foi contratada pelo capataz para atender aos 63 estudantes da Finca, sete deles menores de cinco anos. Não conhece o dono da “empresa”, mas sabe, pelo sotaque, que não se trata de um guatemalteco. O “gringo” chega e vai embora de helicóptero, sempre inacessível, escoltado por homens fortemente armados. Ela trabalha seis horas diariamente, de segunda a sexta-feira, recebe Q 1.200,00 (quetzales, a moeda local), aproximadamente R$ 342,00 e não foi registrada no sistema de previdência social. O valor equivale a pouco mais de metade do salário mínimo guatemalteco e é o único investimento do latifundiário na escola.

A professora nos mostrou a “biblioteca” e os materiais de que dispõe para ensinar. Absolutamente tudo o que há na escola foi adquirido pela maestra ou pelos pais das crianças. “Temos também nossa pequena banda, para alegrar um pouco as pessoas que vivem aqui”, relatou, apontando uns poucos instrumentos musicais.

Não há qualquer alimentação para os estudantes, nem recursos públicos, pois na “ilógica” da impunidade trata-se de uma escola particular.

Licença Creative Commons
Este obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 2.5 Brasil.