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terça-feira, 4 de março de 2014

‘Voltar a debater racionamento é uma vergonha, face aos bilhões de reais gastos com os grandes consumidores’

Gabriel Brito e Valéria Nader-
Novamente às voltas com problemas no setor energético, que já vêm gerando grande número de cortes no fornecimento à população, o país discute as possibilidades da repetição do racionamento de energia. A exemplo de 2001, ainda sob o mandato de FHC, o tema parece ganhar contornos decisivos em ano eleitoral, com o adicional da MP 579, editada em setembro de 2012 sob promessas, já esvaídas, de redução nos preços da tarifa.

O Correio da Cidadania voltou a conversar com o engenheiro e professor da USP Ildo Sauer, ex-diretor de energia e gás da Petrobras, e um dos planificadores da política energética que integrou o programa político petista no triunfo eleitoral de 2002. Num resumo inicial de Sauer, o que vemos agora é a consequência da não aplicação de tal plano, mantendo-se a estrutura liberalizante dos anos 90 e a preservação dos interesses particulares, que dominam completamente as movimentações dos políticos do setor. Tudo, há mais de dez anos, como faz questão de ressaltar, sob a égide da atual presidente e ex-ministra das Minas e Energia.

“Não se desmontou a máquina de aumentar custos e nem as enormes transferências para os grandes consumidores de energia, muito menos os benefícios pagos a muitas empresas privadas que têm contratos altamente favorecidos para construir usinas térmicas. Dilma, então, promoveu um populismo de baixar a tarifa, sem baixar custos, ao preço da destruição do patrimônio público. Perdem as estatais e perdem-se créditos do Tesouro Nacional”, destacou Ildo.

Prova cabal do que seria uma lamentável falta de planejamento do setor estaria sendo dada pelas duas usinas do Rio Madeira, construídas com grande apoio oficial, agora em ‘conflito’. “Tudo decorre da falta de um sistema de planejamento, do sistema de gestão, de fiscalização prática. É nítido. Fazem um sistema de baixa qualidade e cobram preço de alta qualidade. Depois vemos ministro dizer que, se quisermos mais qualidade, temos de pagar mais ainda”, arremata Sauer, para quem um coerente aproveitamento do potencial hidráulico e eólico dispensaria o açodamento na construção das grandes e controversas usinas (Belo Monte incluída).

Ildo Sauer não vislumbra um quadro animador, uma vez que outros modelos de condução do setor não entram em debate. Uma vantagem para os atuais dirigentes do setor, que poderão “empurrar todos os problemas com a barriga, independentemente do custo, para chegar ao fim de outubro sem ter de fazer racionamento”. Mas “se o governo tiver de fazer um profundo racionamento depois, fará”, conclui o engenheiro.

Correio da Cidadania: Em entrevista ao Correio no ano passado, você já discorria longamente sobre o planejamento público lesivo a empresas estatais geradoras de energia como Chesf, Furnas e Eletronorte, fortemente impactadas pela política de renovação de concessões em troca do corte de tarifas – o que acabaria por beneficiar grandes consumidores e prejudicar o tesouro e a sociedade. Em que medida esse fato está hoje presente nos últimos episódios do país, de seca, falta de água e apagões disseminados e localizados?

Ildo Sauer: De fato, a crítica que fizemos de 2012 pra cá, sobre a tentativa de artificialmente reduzir tarifas sem baixar custos, e ao mesmo tempo descapitalizando, fragilizando e até destruindo as perspectivas de empresas de grande porte – Chesf, Furnas e outras federais –, tem a ver com o reconhecimento de que o sistema energético brasileiro – neste caso elétrico – vem sendo fragilizado continuadamente desde o final dos anos 90, quando se prometeu a liberalização e depois um choque, com o racionamento de 2001.

Criou-se um conjunto de propostas capazes de reordenar o sistema, reequilibrá-lo, promover a utilização eficiente dos melhores recursos naturais, tecnológicos e humanos disponíveis e ao mesmo tempo equilibrar a destinação dos benefícios. Isto é, uma energia de menor custo, com recursos naturais pertencentes à nação, poderia, de um lado, beneficiar o sistema produtivo em geral e, de outro lado, gerar um excedente econômico capaz de ser utilizado socialmente para reduzir as assimetrias. Essa é a síntese da proposta de 2002, da Frente Brasil Popular, mas não foi implementada. Pelo contrário, o setor energético, em geral, e elétrico, em particular, se tornaram instrumento de barganha do novo governo, pra construir uma base de apoio político e econômico. Político no sentido pequeno, partidário, de grupos. E se aprofundou a cupinização do espaço público nas empresas, quando então os grupos de interesse, de partidos e políticos, passaram a se entranhar na gestão, o que já vinha acontecendo em governos anteriores, servindo-se do setor como espaço de negociação para coisas publicamente inexplicáveis.

quarta-feira, 13 de março de 2013

‘Pacotes do governo vão completar processo que FHC não conseguiu terminar’



A maioria esmagadora, senão quase  toda,  a   chamada imprensa livre, constituída por blogs de esquerda e centro esquerda , cognominados pela grande mídia  e pela direita de “blogs sujos”,  têm feito o seu papel no sentido de informar com razoável precisão e desinteresse  os navegantes da web.

 Se   a  grande imprensa  desempenhasse  a sua  verdadeira  função, como já apontaram vários  corajosos e assíduos  representantes  da imprensa independente, a sociedade  e o país muito ganhariam.            Sim, isso é um ponto pacífico.


Há um fenômeno  todavia   na chamada  blogosfera livre,  embora não muito perceptível, e não generalizada  de se  esquivar , quiçá esse seja o termo mais propício no momento, de  certas informações , a propósito muito preocupantes, de certos  fatos  resultados  de  ações políticas  oriundas  de setores importantes e viscerais   do governo federal . Tais  detalhes, por assim dizer,   se submetidos a um crivo socialista  transformam-se rapidamente em grande frustração.  

  Mas não podemos, creio, deixar de  fazer, como  de costume,  aqueles  apontamentos  que  colocam os blogs num patamar bem diferente da grande mídia.  Mesmo que  tais  apontamentos   estejam carregados de agudeza e acidez .

O   engenheiro e professor da USP Ildo Sauer, ex-diretor de petróleo e gás da Petrobras tem sido bastante torrencial   quando  trata das questões  pertinentes  a  área de  energia  e similares.   Profundo conhecedor  do setor  ele  aponta, com grande precisão, os principais pontos  vulneráveis da política econômica do governo Dilma.
  Eu o ouvi, in loco, numa ocasião em que estive na Assembleia  Legislativa de São Paulo  no início de 2008 para participar de um  evento sobre o impacto de barragens, em usinas hidrelétricas,   suas politicas compensatórias   e outras consequentes do gênero.  Ele causou-me notável impressão.

Trata-se de um profissional notável  cujas opiniões sempre foram de grande   credibilidade.  Há, todavia, aqueles que não coadunam  com tal observação.  A matéria que segue abaixo é do site  Correio da Cidadania.
 Uma brilhante entrevista com   esse professor  que se expressa, com  convicção e respeito, sobre  essa insistente problemática  questão l dos recursos energéticos   e suas potencialidades.

Professor Jeovane

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Iniciado o terceiro ano de Dilma Rousseff à frente da República, o país encontra-se em uma considerável sinuca econômica. As reiteradas tentativas de fazer a economia decolar, referendando a ideia de que o Brasil não seria atingido pela crise mundial, seguem dando no muro, apesar dos cada vez mais robustos subsídios oferecidos pelo governo ao empresariado, nacional e internacional.



Para debater o atual cenário, o Correio da Cidadania entrevistou o engenheiro e professor da USP Ildo Sauer, ex-diretor de petróleo e gás da Petrobras e implacável crítico dos governos petistas e sua metamorfose política. Para ele, o atual momento retrata uma disputa “intercapitalista” entre os diversos grupos de apoio ao governo, subsidiada por bilhões de reais do BNDES, ávidos em conquistarem espaços nos mais diversos segmentos econômicos. “Os pacotes de subsídios certamente vão completar o processo que FHC não conseguiu terminar”, afirma.




Em uma análise mais estrutural, Sauer constata que os anos petistas no governo central promoveram a fusão de dois projetos nacionais colocados à mesa no século 20. Preservando a “bem vinda herança maldita de FHC”, de associação capitalista subordinada, Lula tentou também aplicar parte da visão cepalina, isto é, criar atores privados nacionais portentosos, a disputarem mercados e se tornarem hegemônicos em seu setor. Já a ideia de uma sociedade com “traços nitidamente socialistas”, um terceiro projeto que desde o século passado ronda a esquerda e que ajudou a embasar o Partido dos Trabalhadores, caiu no esquecimento.




Desse modo, aliado a um “complô midiático contra a inteligência nacional”, o governo tenta de todas as formas criar incentivos para que o atual projeto econômico mantenha seu fôlego e evite a crise social que está à espreita. Na visão de Sauer, o governo Dilma prossegue fiel aos paradigmas neoliberais e trata de “destruir tudo que ainda resta de capacidade de planejamento público”, o que se comprova numa desastrosa gestão do setor elétrico e na campanha de desmoralização da Petrobras. Tudo em nome dos interesses da enorme base de sua sustentação do governo.




Quanto aos sempre polêmicos debates energéticos, Sauer reafirma a ineficiência no planejamento. Sempre pautado pelos grupos privados que o patrocinam, o governo faz “populismo” no setor com dinheiro do Tesouro Nacional, sem tocar na enorme lucratividade privada. As estatais estão sendo levadas ao abismo sem gerar qualquer excedente econômico com destinação social. “Sob a ótica capitalista, o país vive em crise. Sob a ótica socialista, é um desastre”.




A entrevista completa com Ildo Luís Sauer pode ser conferida na íntegra a seguir.



Correio da Cidadania: Aqueles leitores que acompanham a conjuntura política, econômica e social têm se deparado com um cenário de muitas ambiguidades: por um lado, está uma grande parte dos interlocutores da grande mídia, acusando o atual governo Dilma de um aprofundamento inoportuno do ‘dirigismo’ estatal; de outra parte, há os defensores do atual acirramento daquela que seria uma visão e atuação mais ‘desenvolvimentista’ deste governo; e há ainda os que criticam esta que conformaria uma falsa dicotomia, vez que o atual governo pratica novas e mais sorrateiras formas de privatismo na economia. Como você, que participou do governo Lula e já trabalhou com Dilma, se posiciona neste debate?



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