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segunda-feira, 22 de junho de 2026

O momento Waterloo de Trump

 


Não parece que Donald Trump seja grande fã de livros de história, por isso não creio que saiba o que aconteceu a Napoleão em Waterloo. Se soubesse, não deixaria de ter pesadelos com isso.

O economista Blair Fix publicou, em maio de 2026, um artigo que desmonta o mito do poderio militar norte-americano. O título (traduzido: O negócio da guerra e a má avaliação do poder militar) diz quase tudo:   o exército dos Estados Unidos deixou de ser uma máquina de ganhar guerras porque se tornou uma máquina de gerar lucros financeiros. E quando Fix procurou uma referência histórica para ilustrar essa transição, não escolheu o Vietname nem o Iraque. Encontrou Napoleão.

A comparação não é aleatória. Napoleão construiu o maior aparelho militar que a Europa já conhecera, financiou-o com dívida e conquistas e administrou-o como um instrumento de poder pessoal, em vez de uma ferramenta ao serviço de uma estratégia sustentável. O resultado foi Waterloo:   não apenas uma derrota pontual, mas o colapso de um modelo que havia confundido a aparência do poder com a sua essência. Fix argumenta que os Estados Unidos vêm percorrendo esse mesmo caminho há décadas. Gastam cada ano mais, mas, se bem avaliado, o seu peso não é o que parece. Segundo os cálculos de Fix, o seu poder de compra global, em termos relativos, situa-se agora em apenas 4% do máximo atingido durante a Segunda Guerra Mundial. E o mais revelador: esse valor monetário provavelmente sobrestima o poder militar real, porque uma parte crescente desses gastos não compra capacidade de combate, mas sim rentabilidade para os acionistas das grandes empresas de defesa. O economista Michael Hudson compara as armas fabricadas pelos Estados Unidos a um Rolls-Royce:   servem para ir para o trabalho, mas a um custo proibitivo. Outros países, como ficou patente na recente guerra no Irão, fabricam-nas de forma mais barata e eficaz — porque não procuram alimentar o negócio financeiro — e, com elas, conseguem neutralizar ou destruir sistemas de armamento norte-americanos extremamente mais caros, gastando muito menos dinheiro.

O curioso neste caso é que, embora a análise de Fix seja original, brilhante e rigorosa, na realidade vem confirmar o que o próprio presidente Trump reconheceu em janeiro de 2026. Na sua Ordem Executiva 14372, destinada a dar prioridade ao pessoal militar na contratação no setor da defesa, afirma-o sem rodeios:   «Após anos de prioridades erradas, os contratantes tradicionais do setor da defesa foram incentivados a dar prioridade à rentabilidade para os investidores em detrimento das forças armadas da nação (...) Inúmeros grandes contratantes, ao mesmo tempo que não cumprem os seus contratos atuais, procuram novos contratos mais lucrativos, recompras de ações e dividendos excessivos para os acionistas, em detrimento da capacidade de produção, da inovação e da pontualidade nas entregas».

E não deixa de ser igualmente significativo que, enquanto Fix publicava a sua análise, Trump mostrasse os planos de um arco do triunfo com 75 metros de altura — o maior do mundo — que tenciona construir, coroado por uma figura alada com uma tocha e ladeado por águias e leões dourados, em frente ao Memorial de Lincoln, em Washington. Tal como o próprio Trump reconheceu, à imagem e semelhança do Arco do Triunfo parisiense encomendado por Napoleão em 1806, no momento do auge da sua ilusão imperial.

Os impérios em declínio agem sempre da mesma forma. Quanto mais inseguros estão quanto ao seu poder real, mais precisam de o monumentalizar, enquanto as potências em fase de verdadeiro apogeu nunca precisam de o proclamar em pedra e ouro. Demonstram-no e exercem-no com atos.

O Waterloo de Donald Trump

O presidente dos Estados Unidos anunciou e comemorou o acordo preliminar de paz de 14 de junho de 2026 com o Irão como uma grande vitória. Mas quem o ler com um mínimo de atenção tem de chegar a uma conclusão diferente.

Os Estados Unidos haviam exigido, em março, que o Irão desmantelasse as suas três principais instalações nucleares, pusesse fim ao enriquecimento de urânio em solo iraniano, suspendesse o seu programa de mísseis balísticos e garantisse a reabertura total do Estreito de Ormuz.

O que o memorando assinado contém é outra coisa:   o programa nuclear não é desmantelado; o urânio enriquecido existente será diluído em território iraniano sob a supervisão da AIEA, e as atividades de enriquecimento serão discutidas no âmbito do acordo final; o Irão mantém as suas instalações e o enriquecimento é negociado, não eliminado; não há qualquer menção aos mísseis; os Estados Unidos comprometem-se a levantar todas as sanções e a desenvolver um plano de reconstrução económica para o Irão no valor de, pelo menos, 300 mil milhões de dólares, com todas as autorizações e licenças necessárias para as transações financeiras; o Irão compromete-se a garantir a livre passagem de navios comerciais sem cobrar taxas apenas durante 60 dias; Os Estados Unidos não terão soberania naquela região e concordam em retirar as suas forças das proximidades do Irão no prazo de 30 dias após a conclusão do acordo final. E as duas cerejas no topo do bolo. Uma delas é o ponto 14, que estabelece que o acordo requer a aprovação do Conselho de Segurança da ONU, o que confere a Moscovo e a Pequim um direito de veto efetivo sobre o resultado. A potência que declarou guerra unilateralmente precisa do aval dos seus adversários estratégicos para a encerrar. A outra pérola: Israel fica de fora, ao não figurar como ator determinante na arquitetura final do acordo.

O que Trump assinou não é o ato de uma vitória. Na prática, equivale ao reconhecimento de uma derrota negociada.

O fracasso militar dos Estados Unidos no Irão não foi tão claro como a derrota de Napoleão em Waterloo. E, obviamente, não significa o seu fim como potência imperial, tal como Waterloo também não foi o fim imediato do poder francês. Marcou simplesmente o fim da sua forma de exercer o poder, a crença de que a vontade do líder e a dimensão dos seus exércitos bastam para alterar o curso da história.

Por isso, é aceitável dizer que Trump enfrenta o seu momento Waterloo. O memorando de 14 de junho atesta que a potência que entrou em guerra para demonstrar o seu domínio absoluto teve de a concluir pedindo autorização ao Conselho de Segurança de uma Organização das Nações Unidas que, há alguns meses, pretendia eliminar ao deixar de contribuir para o seu financiamento.

É sabido que os impérios não respeitam os acordos que assinam em declínio e os Estados Unidos não serão exceção. Mas, por enquanto, o que aconteceu no Irão revela que Washington já não dispõe da capacidade de impor unilateralmente a sua vontade, como fez durante décadas, e que a transformação do seu complexo militar-industrial num negócio financeiro está a começar a traduzir-se em limites geopolíticos visíveis que podem revelar-se muito em breve devastadores.

20/Junho/2026

[*] Economista, professor da Universidade de Sevilha.

O original encontra-se em La Voz del Sur e em juantorreslopez.com/el-momento-waterloo-de-trump/

Este artigo encontra-se em resistir.info
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Fonte:  site  PCB 

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