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terça-feira, 14 de julho de 2015

Barbárie: a descoberta dos arquivos do terror na Guatemala

Há dez anos, no dia 5 de julho de 2005, foram encontradas mais de 80 milhões de páginas com assassinatos e desaparecimentos de oposicionistas. Desde a derrubada do governo democrático de Jacobo Árbenz pela CIA, em 1954, mais de 250 mil pessoas morreram.

Arquivos da Polícia Nacional. Foto: Daniel Hernández Salazar

        Leonardo Wexell Severo

Uma denúncia sobre “explosivos mal armazenados” fez com que no dia 5 de julho de 2005 funcionários da Procuradoria de Direitos Humanos (PDH) entrassem em um velho paiol abandonado, infestado de ratos, no centro da capital guatemalteca. Então, o que era para ser uma investigação de rotina se transformou na maior descoberta sobre a política de terrorismo de Estado praticada pela oligarquia, com apoio da CIA, contra “subversivos”, “esquerdistas” e “comunistas” no continente. A verdade documentada em 80 milhões de páginas continha os pormenores de décadas de perseguições, torturas, desaparecimentos e assassinatos de oposicionistas.


A memória do crime estava ali, abandonada para ser decomposta pela umidade e pelo tempo. A recordação depositada em pilhas de mais de três metros de altura, nos cinco edifícios antes pertencentes à Polícia Nacional. A rica trajetória da resistência popular deixada ao léu para ser roída. A lembrança escondida pela principal “seção” das “forças de segurança” durante os 30 anos da guerra suja que deixou mais de 250 mil mortos. “Forças” desmanteladas por exigência do acordo de paz de 1996 firmado pelo governo com a guerrilha. Retrato de um país convertido “numa imensa sepultura sem nome”, nas palavras da analista Kate Doyle, diretora do Projeto de Documentação da Guatemala.

Oposicionistas "desaparecidos" viravam NN (Nome nenhum)

“Quando visitei o lugar no começo de agosto, vi armários inteiros classificados segundo o tema: ‘Assassinatos’, ‘Desaparecidos’ e ‘Homicídios’, assim como expedientes assinalando nomes de pessoas internacionalmente conhecidas, de vítimas de assassinato político”, descreve a arquivista-chefe e conselheira do Arquivo de Segurança Nacional dos EUA, Trudy Huskamp Peterson. Conforme relatou Peterson, nos “Arquivos da Polícia”, “havia fotografias de corpos e presos, listas de informantes da polícia com nome e foto, montes de habilitações de motorista, fitas de vídeos e disquetes de computadores”. E mais, listas com nomes de filhos de guerrilheiros mortos e das famílias que os adotaram como seus ou simplesmente para servi-los.

HERÓIS ANÔNIMOS

Desafiadora, a verdade sobreviveu, em meio à manipulação midiática, ao pó, aos insetos e às fezes de morcegos. Dezenas de milhares daqueles homens e mulheres que posteriormente iriam ser reduzidos à sigla NN (nome nenhum) estão ali muito bem identificados, com sobrenome, endereço, telefone, hábitos, preferências. Também há gente de renome, como o advogado trabalhista Mario López Larrave, assessor do Comitê Nacional de Unidade Sindical (CNUS), metralhado quando saía do seu escritório em 8 de junho de 1977; o ex-prefeito da capital guatemalteca e líder oposicionista Manuel Colom Argueta, assassinado em 22 de março de 1979, uma semana após registrar seu novo partido; e a jovem antropóloga Myrna Mack, que auxiliava os maias sobreviventes de massacres, apunhalada 27 vezes por um esquadrão da morte das Forças Armadas da Guatemala, no centro da capital, no dia 11 de setembro de 1990.


Made in USA: fotografias de vidas ceifadas

Nas cidades, lembra Kate Doyle, a repressão havia buscado desmembrar a oposição sem deixar rastros oficiais. “Esquadrões da morte atuavam sem uniformes, em veículos sem identificação. Os jornais faziam o seu jogo noticiando cada novo cadáver como ‘homens sem identificação com roupas de civil’. Assassinos anônimos retiravam a identidade de suas vítimas, deformando completamente rostos e cortando as mãos, ou os sequestravam e jogavam seus corpos no esquecimento de barrancos, lagos e fossas comuns”.

COMISSÃO DA VERDADE

Se chegaram tarde para contribuir com a “Comissão da Verdade” - patrocinada pela ONU, em 1997 – os “Arquivos da Polícia” auxiliam no restabelecimento da verdade histórica, fundamental para a vitória da Justiça e a derrota da impunidade. A Comissão foi inviabilizada pelos militares, serviços de Inteligência e Segurança, que alegavam que tais documentos tinham sido destruídos ou simplesmente nunca haviam existido. E foi deliberadamente sabotada pelo governo dos Estados Unidos – que liberou apenas 1.400 das cerca de 100 mil páginas de documentos sobre a atuação da CIA no país centro-americano. Sem ter acesso ao conjunto das informações, a avaliação apresentada pela Comissão no final de 1999 ficou extremamente limitada.

Concluído em 2011, o informe “Do silêncio à memória: revelações do Arquivo Histórico da Polícia Nacional” contou com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pôde avançar, explicitando alguns pormenores da participação estadunidense. Entre eles, a atuação do governo dos EUA para assegurar a coordenação entre as diversas - e dispersas – forças da repressão guatemaltecas: as polícias Nacional, Judicial, Militar e o Exército. “Tal coordenação surgiu com a assessoria da Oficina para a Segurança Pública (OPS) da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento), estabelecida pelo governo norte-americano como mecanismo para supervisionar o treinamento das forças policiais a nível internacional”, assinala o documento. Como revelou a jornalista e escritora argentina Stella Caloni, “a USAID foi utilizada durante o governo Reagan para dar uma fachada de legalidade às ações encobertas da CIA, que transformou a Guatemala em laboratório do terrorismo direitista”.

O informe mensal de Segurança Pública de março de 1966, desclassificado (um documento secreto, tornado público) pelo Departamento de Estado dos EUA, mostra que a parceria policial-militar foi iniciada muito antes e descreve os “vários tipos de formação policial dada pela OPS para o controle de multidões, uso de gás lacrimogêneo e emprego de armas antimotins”.
Outro documento desclassificado na mesma data, confirma o envolvimento da CIA na “Operação Limpeza” contra expoentes da oposição ao regime. Entre outros, revela o texto, “os seguintes comunistas e terroristas guatemaltecos foram executados secretamente pelas autoridades guatemaltecas na noite de 6 de março de 1966: Víctor Manuel Gutiérrez Garbin, líder do grupo PGT que vivia no exílio no México; Francisco ‘Paco’ Amado Granados, líder do Movimento Revolucionário 13 de Novembro (MR-13) e Carlos Barillas Sosa, meio-irmão de Yon Sosa, dirigente do MR-13”.

MEMÓRIA, ESPAÇO DE LUTA POLÍTICA

Frisando que “a memória é um espaço de luta política”, o advogado e intelectual paraguaio Martín Almada recorda que as ditaduras da região agiram como “gestoras da instalação das multinacionais, que criaram as condições para a entrada do modelo neoliberal”. Por isso, avalia, “foram capatazes dos Estados Unidos, mordomos dos terroristas”. Com o mesmo intuito das atrocidades na América Central, esclarece Almada, “tivemos no Cone Sul a Operação Condor, por meio da qual as ditaduras estabeleceram um sistema de controle, espionagem e prisões ilegais que levou à tortura e ao assassinato de centenas de milhares de civis”. Foi ele quem descobriu os “Arquivos do Terror” paraguaios, no dia 22 de dezembro de 1992, em um departamento da Polícia nas imediações de Assunção. Mais de 700 mil documentos comprovando o “pacto criminoso”. “Encontramos documentação da CIA desde seu primeiro dia em 1956 até 1992”, relatou. Prêmio Nobel Alternativo da Paz, Almada acredita que o momento é de ação para “superar um modelo que gera riqueza e distribui pobreza, e é isso o que eles temem”. “Nossos sonhos de liberdade seguem sendo seu maior pesadelo”, enfatiza.

No caso da Operação Condor, recorda o advogado, os EUA colocaram seus especialistas em “serviços técnicos” da CIA para subministrar “equipamentos de tortura elétrica, com assessoramento até mesmo sobre o grau de choques que o corpo humano poderia resistir”. Afinal, conforme advertiam os professores dos torturadores, “o ser vivo pode dar informação e um cadáver não”.
Representante do Ministério Público da Guatemala na acusação movida contra Ríos Montt, o promotor Orlando López teve a responsabilidade de apresentar as provas que condenaram o fiel aliado de Washington.

Camponeses mortos no Norte da Guatemala em 1982

Superando os traumas e enfrentando as ameaças de morte, mulheres indígenas sobreviventes foram até o júri dar o seu testemunho dos massacres ocorridos contra a população maia. Inúmeros fuzilamentos ocorridos nas suas aldeias, documentados pelo próprio Exército, que os mantinha como troféus de guerra, já comprovavam. “Abriram fogo contra os adultos e jogaram bebês no rio para que se afogassem, acusando a todos de guerrilheiros”, relatou uma. “Fui estuprada por cerca de 20 soldados, até que perdi a consciência”, declarou outra. E outra mais acrescentou que num destacamento militar em Visan, Nebaj, presenciou “os soldados tirarem a cabeça de uma anciã e brincarem com ela”. “Isso jamais poderei tirar da minha mente”, sublinhou.
Sobre a responsabilidade de Ríos Montt nos crimes, lembra o promotor,  “além de ser presidente da República e comandante geral do Exército, ele conservou o cargo de ministro da Defesa”.

Para López, embora o cumprimento da sentença esteja sendo postergado devido às articulações mantidas pela extrema direita na Corte de Constitucionalidade, o impacto na sociedade guatemalteca foi “muito positivo”. “Tanto a impunidade como a corrupção são dois flagelos que estão enraizados e que caminham de mãos dadas”. Mas agora, a partir deste julgamento, acredita o promotor, “se envia uma mensagem de não à impunidade, de que se podemos julgar fatos que ocorreram há trinta anos, também se deveriam julgar ou esclarecer acontecimentos ocorridos recentemente”.
Diante do risco de que a Justiça, enfim, prevaleça, a mídia guatemalteca ligou sua metralhadora giratória, fazendo abundar factóides contra o promotor e a Promotoria, na tentativa de que a sua massificação possa desqualificar o julgamento e fazer o processo retroceder.

Diferente dos “equipamentos” utilizados para dobrar com sangue e dor a resistência dos povos, assinala Stella Caloni, o bombardeio midiático tem se revelado mais  sofisticado e sistemático, pois se multiplica via jornais e revistas, emissoras de rádio e televisão e portais de internet que elevam à enésima potência a propaganda do inimigo como verdade absoluta.
Mas, felizmente, Goebbels e os nazistas estavam completamente errados e uma mentira, apesar de contada mil vezes, jamais se tornará verdade.

O fato, frisa a jornalista argentina, “é que os grandes conglomerados de comunicação são hoje instrumentos do governo de Washington para apagar a memória, desvirtuar a cultura e estimular a submissão à lógica neoliberal, de privatização e desmonte do Estado”. Daí a importância de ampliarmos a denúncia da ação dos monopólios midiáticos e de fortalecermos a mobilização pela regulação e democratização dos meios de comunicação. Porque, mais do que nunca, enfatiza Caloni, “a desinformação é uma arma de guerra do Pentágono”.


Fonte: site ComunicaSul

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