"Menos de um mês antes do
início dos protestos na Turquia, o governo brasileiro apoiou um encontro de
empresas de armamentos brasileiros com compradores estrangeiros em
Istambul".
Em 2012, quando a inscrição Made
in Brazil estampava projéteis de gás lacrimogêneo utilizados contra
manifestantes pró-democracia em Bahrein e ativistas denunciavam, inclusive, a
morte de um bebê, supostamente vítima do gás brasileiro, o Ministério das Relações
Exteriores (do Brasil) anunciou que investigaria a existência ou não de alguma
irregularidade na exportação. No entanto, um ano depois, o Itamaraty (a sede do
Ministério de Exteriores) informa que apenas observa o caso, sem conduzir
investigação alguma ou tomar medidas. Em uma resposta indignada, um ativista
norte-americano-saudita escreveu: “o Itamaraty deve acreditar que somos
ingênuos”.
Por conta da falta de restrições
à exportação de armas não letais, o gás, fabricado pela empresa Condor S.A., do
Rio de Janeiro, é empregado agora pela Polícia da Turquia na repressão aos
crescentes protestos contra o governo de Recep Tayyip Erdogan, que se
estenderam por mais de 60 localidades de todo o país, deixando centenas de
feridos e uns 2.000 detidos.
A Anistia Internacional confirmou
o uso do gás lacrimogêneo brasileiro durante as manifestações, que se iniciaram
depois de um protesto pacífico contra o corte de 600 árvores na Praça Taksim,
em Istambul. A professora norte-americana Suzette Grillot, que está em Ancara,
fotografou um dos projéteis brasileiros utilizados pela polícia: “Um membro de
nosso grupo encontrou a cápsula na noite de ontem (3 de junho), em Ancara”,
relatou a Agência Pública.
O gás lacrimogêneo brasileiro vem
sendo utilizado desde o começo dos protestos, em 31 de maio, em Istambul.
“Aquele dia tinha apenas um pequeno grupo de ambientalistas. A polícia invadiu
o parque às cinco da manhã, quando o grupo dormia nas tendas. Os policiais
queimaram as tendas e atacaram os manifestantes com gás lacrimogêneo”, conta um
participante do movimento Occupy Gezi, que preferiu não identificar-se por medo
de represálias. “Os policiais tinham que apontar os projéteis de gás para cima,
mas os apontavam para nós. Alguns perderam a vista ao serem atingidos diretamente
(pelos projéteis). Outros receberam os disparos nos braços e nas pernas.
Existem centenas de vídeos mostrando os efeitos do gás: lágrimas, náusea,
vômito, dificuldades para respirar”.
O escritório de Direitos Humanos
da ONU pediu à Turquia que conduzisse uma investigação independente sobre a
conduta de suas forças de segurança em relação aos protestos. “Estamos
preocupados com os relatos de uso excessivo de força pelos agentes da lei
contra os manifestantes”, disse um porta-voz do Alto Comissariado das Nações
Unidas para os Direitos Humanos, Cecile Pouilly.
A cápsula fotografada pela
norte-americana Suzette Grillot é o resto de um projétil lacrimogêneo de longo
alcance (GL 202), produzido pela Condor, líder na produção deste tipo de arma
na América Latina. O projétil alcança uma distância média de 120 metros e tem a
capacidade de passar por cima de obstáculos como muros e barricadas “para
desalojar pessoas e dissolver grupos de infratores da lei”, segundo a descrição
do próprio fabricante. Somente a má utilização dos projéteis, explica a Condor
em seu site, pode causar danos sérios à saúde e, inclusive, a morte.





