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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Do corredor da morte, ao vivo!

Munia Abu-Jamal

internacional
Deisy Francis Mexidor
Seg, 30 de Maio de 2011 13:40
A história do sistema de justiça dos Estados Unidos contém inumeráveis páginas que a desdouram, uma delas a de Mumia Abu Jamal, o mais célebre dos condenados à morte nesse país.

Abu-Jamal, jornalista e ex-membro do Partido Panteras Negras (Black Panthers Party), foi acusado de matar um policial branco na Filadélfia em 1981.

Em 1982 foi sentenciado à pena capital, depois de um julgamento amplamente criticado por parcial, viciado e racista.

As evidências conduziram a provas irrefutáveis: o agente morto foi impactado por uma arma calibre 44, enquanto a de Mumia, segundo as provas periciais, era uma calibre 38.

Um testemunha, veterano da guerra do Vietnã, viu todo o incidente, mas o intimidaram e foi obrigado a modificar seu depoimento.

Ao mesmo tempo, os membros afro-estadunidenses do júri foram mudados antes da realização do julgamento.

A execução de Jamal foi suspendida em dezembro de 1999, depois que seus advogados solicitaram a revisão do processo para examinar a confissão de Arnold Beverly, que então havia se declarado como o verdadeiro autor do assassinato.

No entanto, Mumia sempre sustentou que não cometeu o crime. "Uma Corte não pode transformar um homem inocente em culpado ", disse.

Enquanto isso, leva três décadas no corredor da morte, aguardando por uma justiça que parece cega.

A causa tem suscitado a solidariedade de milhares de pessoas no mundo, incluídas personalidades como os sul-africanos Desmond Tutu e Nelson Mandela ou a ex-primeira dama da França Danielle Miterrand.

Ademais, amplos setores da intelectualidade e da cultura dos Estados Unidos têm chamado a retificar a injustiça.

Em 2010 foi lançado um abaixo-assinado pela liberdade de Mumia, que recolheu ao redor de 33 mil assinaturas.

Vozes como a do falecido ator Paul Newman, da escritora Alice Walter e do também ator e ativista Danny Glover destacam-se no pedido de libertação do jornalista negro.

Em janeiro do ano passado, a Corte Suprema apoiou uma apelação do promotor para anular o que foi de fato a comutação da pena de morte ditada contra Mumia.

O caso regressou assim a um tribunal de reclamações que antes tinha invalidado a sentença máxima ao outorgar a Abu-Jamal um novo julgamento para reconsiderar sua condenação, ainda que não sua culpabilidade.

Finalmente, em 26 de abril, uma Corte da Pensilvânia (nordeste) considerou que o réu, atualmente com 57 anos, tem direito a uma nova audiência de sentença nos próximos seis meses, mas que a condenação "por assassinato em primeiro grau se mantém".

John Payton, diretor-conselheiro do Fundo educativo e de defesa legal da NAACP, organização lutadora pelos direitos civis que participa na defesa do prisioneiro, declarou que a decisão é um primeiro passo para a correção de um erro de longa data.

Nascido em um geto negro do oeste da Filadelfia em 24 de abril de 1954 e procedente de uma família pobre, Mumia Abu Jamal, cujo nome de origem é Wesley Cook, abraçou desde jovem as ideias emancipadoras.

Seu ativismo político e o caráter discriminatório do sistema em seu conjunto foram elementos que contribuíram na realização de um processo contra ele.

"Está instrumentado pela classe dirigente e sempre foi assim, mas, que pode ser 'isto', com cerca de dois milhões de cidadãos presos, 50% dos quais são negros e hispânicos?", expressou Mumia a esta repórter em uma entrevista dada no final de 2001. Naquele momento destacou que "o ser negro em um Estado racista de supremacia branca significa uma ameaça constante de morte" e disse que ali existem mais pessoas na prisão que em nenhuma outra nação do mundo, ainda acima de países que o avantajam em população, como Índia e China.

"Somente um poder judicial imperial, dedicado à escuridão, a repressão e a morte poderia contemplar tal coisa. É por isso que eu tenho chamado os Estados Unidos de cárcere das nações.

Tem 5% dos habitantes do mundo e pelo menos 24% da população penal do globo", acusou.

A situação não tem mudado. Os números, longe de diminuir, aumentam.

Agora, com a nova decisão, outro atalho legal se abre para Mumia. "They don't just want my death, they want my silence" (eles não só querem minha morte, querem meu silêncio), sustenta.

Mas não é possível aplastar a vontade incomovível de um homem que diz: "Há história imperial, história nacional e história dos povos. Os impérios surgem e caem. As nações também estão constantemente em estado de transformação. Só os povos permanecem".

E, ainda do corredor da morte, publica artigos em vários jornais, mantém um espaço no rádio e escreveu cinco livros, o mais recente dos qyuais We Want Freedom, que vendeu mais de 150 mil cópias e foi traduzido para nove idiomas.

Mas além disso, Mumia Abu Jamal tem expressado sua solidariedade com outras causas que igualmente colocam uma escura mancha sobre aquele sistema de justiça. Esse é o caso de Antonio Guerrero, Fernando González, Gerardo Hernández, Ramón Labañino e René González, presos há quase 13 anos nos Estados Unidos apenas por vigiar os grupos que organizavam ações terroristas contra Cuba.

Deisy Francis Mexidor é jornalista da Redação América do Norte da Prensa Latina

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