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domingo, 4 de agosto de 2013

"Existem brasileiros que nunca tiveram acesso a um médico", diz médico formado em Cuba.


Para Augusto César, a resistência aos programas do governo são meios encontrados pela classe médica para manter uma reserva de mercado nas áreas mais carentes de atendimento

 por José Coutinho Júnior,

“Somos ricos, somos cultos. Fora os imbecis corruptos”. Com este grito, diversos médicos protestavam em frente ao ministério da saúde na terça-feira (30/07). A razão dos protestos é, principalmente, a oposição dos médicos brasileiros às propostas do governo em relação à saúde.

O programa Mais Médicos, lançado pelo governo federal com o intuito de aumentar o número de profissionais da saúde em áreas carentes, causou polêmica ao propor a vinda de médicos estrangeiros para trabalhar no Brasil.

O processo de cadastramento do programa foi conturbado. Dados mais recentes apontaram que 3.891 médicos formados no Brasil com registro válido se cadastraram; no entanto, 1.631 destes médicos já desistiram do programa, e segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, 90% de todos os cadastros tinham registros inválidos, com sequências numéricas como 000 ou 111. A denúncia de boicote ao programa foi encaminhada à Polícia Federal, que investiga o caso.

A proposta de que médicos que cursam universidades públicas deveriam servir dois anos no Sistema Único de Saúde (SUS) para concluir o curso também foi fortemente atacada, o que fez com que o governo retrocedesse.

Para Augusto César, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e formado em medicina em Cuba, essa resistência aos programas do governo são meios encontrados pela classe médica para manter uma reserva de mercado nas áreas mais carentes de atendimento. “A classe médica brasileira teme perder privilégios de reserva de mercado que eles exercem. Por faltar médicos, eles podem sugar das prefeituras preços salariais altíssimos. Por isso, a oposição às medidas do governo”.



Falta de médicos

Andreia Campigotto, médica formada em Cuba e também militante do MST, acredita que a proposta de trazer médicos estrangeiros é positiva. “É uma maneira de acabar com essa injustiça social no país, que é a falta do acesso à saúde. Para fortalecer o SUS, precisamos resolver problemas de gestão e financiamento, mas também fortalecer os recursos humanos, com profissionais comprometidos com o sistema de saúde e que trabalhem para consolidá-lo”.


De acordo com uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), o número de médicos no Brasil aumentou de 59 mil para 400 mil (aumento de 557%) nos últimos 40 anos. O país chegou a dois profissionais para cada 1.000 habitantes. No entanto, a distribuição é desigual. Enquanto a região Sudeste tem 2,7 médicos para cada mil habitantes, a região nordeste tem a metade desse número.

“Existem brasileiros que nunca tiveram acesso a um médico. E quando tem, só pagando. A vinda dos médicos é uma medida pontual, que deve ser acompanhada de outras iniciativas. No entanto, emergencialmente é a melhor maneira para resolver a falta de médicos, principalmente no interior e nas periferias das grandes cidades, onde poucos abrem mão do seu salário alto para ir”, diz Augusto.



Investimentos

Uma das principais reivindicações dos protestos ocorridos no Brasil é a melhoria da saúde pública, com a destinação de 10% dos recursos do Produto Interno Bruto (PIB) para o setor. O SUS, apesar de gratuito, apresenta deficiências e ainda está longe de atender às necessidades dos brasileiros.

Um dos gargalos é o subfinanciamento do SUS. Apenas 4% do PIB é investido na saúde pública, que atende 68% dos brasileiros, de acordo com pesquisa do Ibope. Países como Cuba, Noruega e Canadá investem pelo menos 10% do PIB em saúde pública.

Esse baixo investimento tem graves consequências para a saúde no país. “Os baixos investimentos, ao longo de mais de 50 anos, repercutem no sucateamento de toda a saúde, desde a formação dos médicos até a manutenção de equipes básicas, postos de saúde e de políticas que possam gerar e promover saúde no nosso país”.



Estrutura precária

Para as entidades de classe dos médicos, como o Conselho Federal de Medicina (CFM), as medidas planejadas pelo governo não resolvem o problema da saúde porque o principal gargalo se encontra nas estruturas precarizadas dos hospitais e nas condições de trabalho dos profissionais da saúde. Dados do conselho apontam que a maioria dos hospitais do país possui em média 50 leitos, quando o ideal seria entre 150 e 200.

Augusto acredita que existe uma meia verdade no discurso do CFM. “Construir hospitais não resolve o problema da saúde. Se isso não está casado com uma estratégia maior, não vai resolver. O que nós necessitamos urgentemente são investimentos na atenção básica de saúde, que vai desde os postos de saúde às unidades básicas, que são a porta de entrada capaz de curar mais de 80% dos usuários da saúde”, defende.

Apesar da estrutura precária ser um problema crônico da saúde brasileira, a falta e má distribuição de médicos é uma questão urgente e igualmente grave. “Melhorar a infraestrutura e condições de trabalho é fundamental, mas isso não é um impedimento para o nosso trabalho. No nordeste, estamos num grupo de residência e medicina da família que atende 4000 pessoas. Vivemos na pele a carência de infraestrutura, mas continuamos a realizar um trabalho humanizado, tratando o paciente com atenção, amor e respeito. Conseguimos resolver de 80% dos problemas da área em que atendemos”, afirma Andreia.

“O debate sobre a vinda de médicos estrangeiros é importante para mostrar à população brasileira que o foco não está somente na falta de estrutura. A falta de médicos - comprometidos em sair das grandes cidades e ir para o interior, para municípios que nunca tiveram acesso à saúde por falta de profissionais dispostos - é um problema mais grave do que a falta de estrutura”, acredita Augusto.

 Fonte:  Brasil de Fato e MST - Foto: Valter Campanato/ABr

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