Pages

Subscribe:
Mostrando postagens com marcador MARXISMO-REVOLUÇÃO-VIDA-DEDICAÇÃO-. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MARXISMO-REVOLUÇÃO-VIDA-DEDICAÇÃO-. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Modernidade de Marx.


Miguel Urbano Rodrigues. 

A História não chegou ao fim. Continua e a crise mundial iniciada nos EUA desacreditou o neoliberalismo. Nunca foi tão necessário compreender o mundo e a estratégia da ideologia hegemónica, o capitalismo. Essa situação favoreceu o «renascimento» do marxismo. Daí a importância dos intelectuais que contribuem para a modernidade de Marx neste início do século XXI.

No Rio de Janeiro, em casa de uma amiga, caiu-me nas mãos por acaso um daqueles livros raros que nos lançam em meditação inesperada.

O título da edição brasileira, A Armadilha da Globalização, não é esclarecedor. Foi editado em 1998 pela Globo. Os autores são dois jornalistas alemães, Hans Peter Martin e Harald Schumann.

Hans Peter foi um dos três jornalistas convidados a acompanhar um estranho evento internacional realizado num hotel de luxo em São Francisco, em 1995. O promotor do Encontro, que não mereceu atenção dos media estadunidenses, foi Mikhail Gorbatchov. O tema era muito ambicioso: O futuro da Humanidade.

Participaram 500 representantes da chamada elite mundial, entre os quais George Bush pai, Margaret Thatcher, Ted Turner, da CNN, eminentes professores de Harvard e Oxford e economistas e sociólogos vindos da Europa, de Tóquio e Pequim.

Os debates duraram três dias e as intervenções não podiam exceder 5 minutos, com os pedidos de apartes limitados a 2 minutos.

Houve consenso relativamente a uma «tese» de David Packard, o poderoso patrão da Hewlett Packard. Apoiado em previsões estatísticas, afirmou com convicção que em meados do seculo XXI 20% da população mundial será suficiente, graças aos progressos da ciência e da técnica, para garantir o bom funcionamento da economia. Ficou implícito que uns 40% das classes médias então existentes terão uma vida agradável, mais ou menos ociosa por serem supérfluos para a produção.

Não ficou, porem, claro qual seria a função dos restantes 40%.

Nenhum participante defendeu a necessidade de eliminar essa fração sobrante da humanidade. Mas de algumas intervenções, aplaudidas, transpareceu que guerras, secas, inundações e epidemias incontroláveis contribuiriam para que a população do planeta Terra fosse reduzida ao nível considerado adequado pelos grandes do capital.

Interessado em conhecer a repercussão desse Seminário da elite da Finança mundial, soube por um amigo americano que Gorbatchov foi no final efusivamente felicitado.

A HISTÓRIA NÃO ACABOU E O MARXISMO RENASCE

A previsão sobre o Fim da História foi formulada pelo norte-americano Francis Fukuyama em l989.

Esse funcionário do Departamento de Estado, hegeliano fora de tempo, festejou prematuramente a morte do comunismo, proclamando a eternidade do neoliberalismo.

Transcorridas décadas, o seu exercício de futurologia é ridicularizado inclusive por académicos de direita.

A História continua e a crise mundial iniciada nos EUA desacreditou o neoliberalismo.

Quanto ao marxismo, voltou a despertar um enorme interesse em escala mundial.

O Manifesto Comunista tem sido reeditado em dezenas de países. Congressos sobre Marx e a sua obra são promovidos na Europa, na América Latina, na Ásia.

Em França, um Seminário sobre O MARXISMO NO SECULO XXI, promovido na Sorbonne por Jean Salem, é acompanhado na Internet por umas 30 000 pessoas. Nos últimos anos, Salem tem corrido o mundo para falar sobre Marx em universidades europeias, asiáticas, africanas e latino-americanas.
Ensaios sobre o pensamento do autor de O Capital são editados em muitas línguas.

Marxistas como o húngaro István Meszaros, o italiano Domenico Losurdo, o inglês David Harvey, o alemão Michael Krakte, o argentino Claudio Katz, os franceses Georges Labica, Jean Salem e Rémy Herrera adquiriram prestígio mundial com a publicação de trabalhos que confirmam a extraordinária atualidade da obra de Marx.

A ofensiva do capital contra as grandes conquistas dos trabalhadores posteriores à da II Guerra Mundial, desencadeada apos 1973, acentuou-se depois do fim da URSS. A contrarrevolução neoliberal, liderada por Thatcher e Reagan, tirou da gaveta as teses ultramontanas de Hayek e em poucos anos desmantelou na União Europeia o chamado «estado do bem-estar social».

A DESIGUALDADE AUMENTOU

Os mais ricos enriqueceram prodigiosamente, as massas oprimidas empobreceram e uma percentagem considerável vegeta hoje na pobreza ou numa miséria absoluta.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Hobsbawm, o Marxismo e os intelectuais

Miguel Urbano Rodrigues

Reli há dias o último livro de Eric Hobsbawm: "Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo,1840-2011" [1] . Publicado pouco antes do seu falecimento, é uma coletânea de ensaios, conferências e artigos escritos entre 1956 e 2009.

Distancio-me como comunista de parte da obra do historiador inglês. A discordância de muitas das suas opiniões, nomeadamente a reflexão sobre o desaparecimento da União Soviética e a agressão imperialista ao povo afegão, não me impede de aconselhar a leitura de "Como Mudar o Mundo". O seu mérito maior é o balanço que apresenta do legado de Karl Marx e da sua profunda repercussão nos séculos XIX e XX e neste início do XXI. Tal como assinala no prefácio, "o marxismo foi durante os últimos 130 anos, um tema importante no contexto intelectual do mundo moderno e, através da mobilização de forças sociais, uma presença crucial, e em alguns períodos decisiva, na história do século XX".

A devastadora crise de civilização que hoje enfrentamos demonstra que o capitalismo não tem solução para os problemas da humanidade e terá de ser erradicado. Marx é, hoje como ontem, atualíssimo: ajuda a compreender o presente e abre as alamedas do futuro.

DO ENTUSIASMO À DESERÇÃO

Lenin afirmou que sem teoria revolução alguma pode vencer e ter longa vida. Enunciou uma evidência confirmada pela História.

Daí a importância dos intelectuais revolucionários como produtores e divulgadores de ideologia.

A obra de Marx, a principiar pelo Manifesto Comunista, não teria alcançado projeção mundial, cumprindo um papel insubstituível como guia para a ação revolucionária, se sucessivas gerações de intelectuais não a houvessem divulgado, transmitindo às massas uma nova compreensão da História, da economia, da política.

Mas, ao comentá-la e interpretá-la, muitos autores também a desfiguraram.

O livro de Hobsbawm contém uma informação densa e valiosa sobre a lenta divulgação de Marx ao longo da segunda metade do século XIX e das primeiras décadas do século XX.

Neste desambicioso artigo apenas chamarei a atenção para alguns aspetos da difusão do marxismo antes e depois da segunda guerra mundial e da influência que as posições assumidas por autores que comentaram e interpretaram Marx, deformando-lhe o pensamento, tiveram no rumo de partidos operários tradicionais e de grandes lutas sociais contemporâneas.

Nos anos 20 e 30 do seculo passado, a ascensão do fascismo na Itália e na Alemanha provocou um interesse crescente dos intelectuais pelo marxismo. Escritores como HG Wells, Anatole France, Bernard Shaw, André Malraux, Aragon, entre outros, assumiram a defesa da União Soviética e, na Europa Ocidental e nos EUA, os debates sobre a obra de Marx ganharam atualidade. Três prémios Nobel de Literatura, Aragon, Roger Martin du Gard e André Gide aderiram ao PCF. A ameaça fascista condicionava o futuro da Humanidade. Após a II Guerra Mundial, o interesse pelo marxismo aumentou. O papel decisivo da URSS na derrota do Reich nazi contribuiu muito para a adesão maciça de milhares de intelectuais aos partidos comunistas. Filósofos como Bertrand Russell e Jean Paul Sartre assumiram frontalmente a solidariedade com o povo soviético e os movimentos em defesa da Paz. Nas universidades, professores que não eram marxistas aderiram ao partido comunista.

A partir dos anos 50, houve uma autêntica enxurrada de livros e debates sobre o marxismo. Mas, como sublinha Hobsbawm, "a grande maioria dos intelectuais marxistas nesse período era constituída de marxistas recentes para os quais o próprio marxismo era coisa tão nova quanto, digamos, o jazz, o cinema e a literatura policial" tinham sido para as gerações anteriores.

O marxismo dos europeus era, porém, até à morte de Stalin, com poucas exceções, o divulgado pelas publicações da Academia das Ciências da URSS.

As interpretações alternativas da teoria marxista somente surgiram após as polémicas desencadeadas pelo XX Congresso do PCUS.

Os textos dos filósofos da Escola de Frankfurt, de Adorno, Horkheimer e Marcuse, porta-vozes do chamado "marxismo ocidental", são na época tema de apaixonados debates nos campus universitários, coincidindo com as campanhas dos grandes media contra Stalin. A palavra stalinismo, criada pela burguesia, entra no léxico político.

Para muitos intelectuais, a URSS, na qual durante décadas viam a pátria do socialismo, o país que construíra uma sociedade símbolo do progresso e do humanismo, tornou-se, no auge de campanhas anticomunistas, a imagem da tirania e da desumanização da vida.

Os livros de Gramsci, até então pouco conhecidos fora da Itália, conhecem difusão mundial, extravasando dos meios académicos. Mas a leitura da “mensagem” da obra do autor dos "Cadernos do Cárcere" difere muito, mesmo no âmbito dos Partidos Comunistas do Ocidente.

A própria teoria da Hegemonia – a dominação da cultura de uma classe sobre o conjunto da sociedade - foi submetida a múltiplas interpretações, algumas incompatíveis. Em França, na Itália, em Espanha, gramscianos entusiastas utilizaram-na para desvalorizar a luta de classes. Desvirtuado, Gramsci, um marxista original - inclusive um "leninista" na polémica opinião de Hobsbawm – foi bandeira do eurocomunismo. No Brasil e em Cuba destacados comunistas também o invocaram, distorcendo-lhe o pensamento.

Paradoxalmente, as campanhas contra a URSS e o "socialismo real" não afetaram a difusão do marxismo.

O anti-sovietismo, sobretudo após os acontecimentos da Checoslováquia em l968, marcou a opção revisionista de influentes partidos comunistas do Ocidente, mas não impediu a expansão do marxismo em escala mundial.


Licença Creative Commons
Este obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 2.5 Brasil.