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quarta-feira, 2 de março de 2022

A desconstrução construtiva do modelo relações da Rússia com o Ocidente

                                                      Alastair Crooke [*]

Putin quer dizer precisamente o que diz: a Rússia está encostada à parede, e não há lugar algum para onde a Rússia se possa retirar agora – para eles é uma questão existencial.

 

O Ocidente já estava irado. E apoplético depois que o presidente Putin chocou os líderes ocidentais ao ordenar uma operação militar especial na Ucrânia, que está a ser amplamente descrita (e percebida no Ocidente) como uma declaração de guerra: "um ataque de choque e pavor afetando amplamente cidades em toda a Ucrânia". Na verdade, o Ocidente está tão furioso que o espaço da informação literalmente se bifurcou em dois: é tudo a preto e branco, sem cinzento.

 

Para o Ocidente, Putin desafiou Biden de forma abrangente: unilateral e ilegalmente “mudou as fronteiras” da Europa e agiu como uma “potência revisionista”, tentando mudar não apenas as fronteiras da Ucrânia, mas a atual ordem mundial. “Trinta anos após o fim da Guerra Fria, estamos enfrentando um esforço determinado para redefinir a ordem multilateral”, advertiu o alto representante da UE, Josep Borell. “É um ato de desafio. É um manifesto revisionismo, o manifesto para rever a ordem mundial”.

 

Putin é caracterizado como um novo Hitler e seus atos são considerados “ilegais”. Alega-se que foi ele quem rasgou o Acordo de Minsk II (ainda assim, as Repúblicas declararam sua independência em 2014, assinaram Minsk em 2015, e foi a Rússia que nunca assinou o acordo – e, portanto, não pode violá-lo). De facto, foram os EUA que efetivamente vetaram o processo de Minsk desde 2014 e a publicação da correspondência diplomática da Rússia em novembro de 2021 expôs que a França e a Alemanha também tinham pouca intenção de pressionar Kiev para qualquer implementação significativa. Assim, tendo concluído que um acordo negociado – conforme estipulado nos Acordos de Minsk – simplesmente não aconteceria, Putin determinou que não fazia sentido esperar mais antes de implementar a linha vermelha da Rússia.

 

O falecido Stephen Cohen escreveu sobre os perigos de um inqualificável maniqueísmo – e como o espectro de um Putin diabólico havia tão sobrecarregado e envenenado a imagem dele nos EUA que Washington não consegue pensar direito – e não apenas sobre Putin, mas sobre a Rússia em si mesma. O argumento de Cohen era que essa total demonização enfraquece a diplomacia. Como se distingue o que é diferente do diabólico? Cohen pergunta como isso aconteceu? Ele sugere que em 2004, o colunista do NY Times, Nicholas Kristof, inadvertidamente explicou, pelo menos parcialmente, a diabolização de Putin. Kristof lamentou-se amargamente de ter sido “enganado pelo Sr. Putin. Ele não é uma versão sóbria de Boris Yeltsin”.



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