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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Três notas a propósito da vitória sobre o nazi-fascismo


Gustavo Carneiro
As efe­mé­rides, ainda para mais as da di­mensão e im­por­tância da­quela que por estes dias se as­si­nala – a vi­tória sobre o nazi-fas­cismo na Se­gunda Guerra Mun­dial, a 9 de Maio de 1945 –, devem servir so­bre­tudo para, evo­cando o pas­sado, com­pre­ender o pre­sente e pro­jectar o fu­turo. Ta­refa hoje di­fi­cul­tada, pois entre a re­a­li­dade e o que acerca dela se diz vai por vezes um amplo fosso. Neste caso, é ampla a fal­si­fi­cação da His­tória, com que se pro­cura obs­cu­recer as causas pro­fundas que estão na origem do fas­cismo e da guerra, as forças que mais de­ci­si­va­mente con­tri­buíram para a vi­tória e, até, o mundo que saiu desse con­flito.

Im­porta ver para lá da men­tira,   evitar có­pias   me­câ­nicas    de   re­a­li­dades   di­fe­rentes, se­parar o es­tru­tural do con­jun­tural e pro­curar,   sempre, re­tirar   li­ções   que se re­velem úteis, no caso dos co­mu­nistas e   de­mais forças pro­gres­sistas e   anti-im­pe­ri­a­listas, para pros­se­guir a a luta pela paz, a so­be­rania, a de­mo­cracia e o pro­gresso so­cial.


Eis al­gumas.

1. O fas­cismo é ex­pressão do ca­pi­ta­lismo
O que é o fas­cismo? A res­posta a esta questão é in­con­tor­nável, há 81 anos como hoje. Em 1935, no seu   VII   Con­gresso,   a   In­ter­na­ci­onal   Co­mu­nista (IC) ca­rac­te­rizou o fas­cismo como a «di­ta­dura ter­ro­rista aberta dos ele­mentos  mais re­ac­ci­o­ná­rios,  mais       chau­vi­nistas e mais im­pe­ri­a­listas do ca­pital fi­nan­ceiro».           Vendo para além do su­per­fi­cial – as fardas, as en­ce­na­ções, as pa­radas –, a IC foi  à  es­sência de classe do nazi-fas­cismo, aos   in­te­resses que   servia, a   quem   o  fi­nan­ciava  e sus­ten­ta
va.

Como ex­pli­cava à época Ge­orgi Di­mi­trov, di­ri­gente da IC, os cír­culos im­pe­ri­a­listas ten­tavam «des­car­regar todo o peso das crises sobre os om­bros dos tra­ba­lha­dores»; «re­solver o pro­blema dos mer­cados me­di­ante a es­cra­vi­zação dos povos dé­beis, (…) o au­mento da opressão co­lo­nial e uma nova par­tilha do mundo por meio da guerra»; travar o «cres­ci­mento das forças da re­vo­lução por meio da des­truição do mo­vi­mento re­vo­lu­ci­o­nário» e, em pri­meiro lugar, da União So­vié­tica. Para tudo isto, ga­rantia, ne­ces­si­tavam do fas­cismo.

Ao des­vendar a na­tu­reza do fas­cismo, o mo­vi­mento co­mu­nista in­ter­na­ci­onal apontou também o ca­minho da re­sis­tência – e da vi­tória: a cons­ti­tuição de am­plas ali­anças so­ciais e po­lí­ticas an­ti­fas­cistas, ca­pazes de isolar e com­bater a ameaça prin­cipal que es­tava então co­lo­cada, o nazi-fas­cismo.

Também hoje, im­porta ver para lá das apa­rên­cias dos que, afir­mando-se “anti-sis­tema”, são o pior que o sis­tema ca­pi­ta­lista pro­duziu e nada mais têm a ofe­recer do que criar, pela re­pressão e a res­trição de di­reitos e li­ber­dades, con­di­ções fa­vo­rá­veis a um au­mento ainda mais drás­tico da ex­plo­ração. E com­bater sempre, venha de onde vier, o in­cre­mento do mi­li­ta­rismo.

2. A guerra é in­trín­seca ao im­pe­ri­a­lismo
Em 1915, Lé­nine pu­blicou “O So­ci­a­lismo e a Guerra”, onde apon­tava a ne­ces­si­dade de «es­tudar cada guerra se­pa­ra­da­mente»: aquela era, de­fi­ni­ti­va­mente, uma guerra im­pe­ri­a­lista, entre «os mai­ores pro­pri­e­tá­rios de es­cravos para pre­servar e for­ta­lecer a es­cra­va­tura».

Fa­zendo o mesmo exer­cício para a Se­gunda Guerra Mun­dial, con­cluímos da sua na­tu­reza dupla: uma guerra inter-im­pe­ri­a­lista (com as po­tên­cias der­ro­tadas ou le­sadas no an­te­rior con­flito mun­dial a pro­cu­rarem dis­putar co­ló­nias, fontes de ma­té­rias-primas e zonas de in­fluência com as de­mais po­tên­cias) e, ao mesmo tempo, uma guerra contra o pri­meiro Es­tado so­ci­a­lista do mundo – a União So­vié­tica – e o mo­vi­mento ope­rário. É à luz desta re­a­li­dade que se deve com­pre­ender a ati­tude da In­gla­terra, França e, também, EUA: o aban­dono da Re­pú­blica Es­pa­nhola ao fas­cismo; a pas­si­vi­dade face ao re­ar­ma­mento e ao ex­pan­si­o­nismo ale­mães; a en­trega da Che­cos­lo­vá­quia a Hi­tler na “traição de Mu­nique”; e mesmo a “es­tranha guerra”, de­sig­nação pela qual ficou co­nhe­cido o pe­ríodo ini­cial do con­flito, em que à de­cla­ração de guerra anglo-fran­cesa de 1 de Se­tembro de 1939 se se­guiu uma total pas­si­vi­dade face aos avanços das forças nazi-fas­cistas para Leste.

A ali­ança an­ti­fas­cista, tantas vezes so­li­ci­tada pela União So­vié­tica e re­jei­tada pelas cha­madas “de­mo­cra­cias oci­den­tais”, só co­meçou a ve­ri­ficar-se após a Ale­manha se ter vol­tado pri­meiro para Oci­dente, antes de se con­cen­trar no seu alvo es­tra­té­gico e pri­o­ri­tário: era a Leste que o nazi-fas­cismo bus­cava o seu “es­paço vital”, à custa da con­quista de vastos ter­ri­tó­rios e da sub­ju­gação dos povos.

Se­guindo o repto de Lé­nine, ava­li­emos o nosso tempo e as guerras sem fim com as quais o im­pe­ri­a­lismo norte-ame­ri­cano, com os seus ali­ados, no­me­a­da­mente da NATO e da UE, apesar de con­tra­di­ções, busca manter a he­ge­monia mun­dial con­quis­tada há 30 anos – hoje se­ri­a­mente posta em causa pelas pró­prias con­tra­di­ções do ca­pi­ta­lismo e pela afir­mação e de­sen­vol­vi­mento de ou­tros países, es­paços e or­ga­ni­za­ções pro­mo­toras do mul­ti­la­te­ra­lismo.

Assim se ex­plicam as guerras no Médio Ori­ente e no Leste da Eu­ropa; as in­ge­rên­cias, blo­queios e san­ções contra qual­quer país ou povo que não se sub­meta; a pro­li­fe­ração de bases mi­li­tares e frotas na­vais, o au­mento das des­pesas mi­li­tares e a cor­rida aos ar­ma­mentos; o aban­dono pelos EUA de im­por­tantes tra­tados de de­sar­ma­mento e de­sa­nu­vi­a­mento. Lutar pela paz, contra o mi­li­ta­rismo e a guerra, pela cri­ação de uma ampla frente anti-im­pe­ri­a­lista, são com­bates do nosso tempo.

3. Quem ga­nhou a guerra?
Ao con­trário de ver­sões hollywo­o­descas, a ver­dade é que foi a União So­vié­tica – os seus povos, o seu Exér­cito Ver­melho, o seu Par­tido Co­mu­nista – a prin­cipal obreira da vi­tória: foi na Frente Leste que a Ale­manha perdeu a imensa mai­oria das suas forças; ali se tra­varam as ba­ta­lhas de­ci­sivas (Mos­covo, Sta­li­ne­grado, Kursk, não es­que­cendo a he­róica re­sis­tência aos 900 dias de cerco de Le­ni­ne­grado, entre ou­tras); foi o Exér­cito Ver­melho que li­bertou o campo de ex­ter­mínio de Aus­chwitz e forçou a ren­dição dos nazi-fas­cistas em Berlim; foi o seu exemplo he­róico que animou a re­sis­tência po­pular nou­tros países.

Isto não é um por­menor. Ao con­trário do que su­cedeu no pós-Pri­meira Guerra, cuja paz fora – afirmou-o Lé­nine – «di­tada por ban­didos», a na­tu­reza pro­fun­da­mente an­ti­fas­cista, de­mo­crá­tica e pro­gres­sista do se­gundo pós-guerra re­sulta pre­ci­sa­mente da força e do pres­tígio com que a União So­vié­tica, os co­mu­nistas e ou­tras forças an­ti­fas­cistas saíram deste con­flito: as re­vo­lu­ções so­ci­a­listas e po­pu­lares, os di­reitos al­can­çados, o imenso mo­vi­mento de li­ber­tação na­ci­onal e o fim do co­lo­ni­a­lismo, a cri­ação de uma ordem in­ter­na­ci­onal mais justa são disto prova.

Que estas ques­tões es­tejam ainda no centro do de­bate ide­o­ló­gico e dos con­flitos in­ter­na­ci­o­nais só atesta da sua ac­tu­a­li­dade.

Fonte:  site  Avante 

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