As efemérides, ainda para mais as da dimensão e importância daquela que por estes dias se assinala – a vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, a 9 de Maio de 1945 –, devem servir sobretudo para, evocando o passado, compreender o presente e projectar o futuro. Tarefa hoje dificultada, pois entre a realidade e o que acerca dela se diz vai por vezes um amplo fosso. Neste caso, é ampla a falsificação da História, com que se procura obscurecer as causas profundas que estão na origem do fascismo e da guerra, as forças que mais decisivamente contribuíram para a vitória e, até, o mundo que saiu desse conflito.
Importa ver para lá da mentira, evitar cópias mecânicas de realidades diferentes, separar o estrutural do conjuntural e procurar, sempre, retirar lições que se revelem úteis, no caso dos comunistas e demais forças progressistas e anti-imperialistas, para prosseguir a a luta pela paz, a soberania, a democracia e o progresso social.
Eis algumas.
1. O fascismo é expressão do capitalismo
O que é o fascismo? A resposta a esta questão é incontornável, há 81 anos como hoje. Em 1935, no seu VII Congresso, a Internacional Comunista (IC) caracterizou o fascismo como a «ditadura terrorista aberta dos elementos mais reaccionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro». Vendo para além do superficial – as fardas, as encenações, as paradas –, a IC foi à essência de classe do nazi-fascismo, aos interesses que servia, a quem o financiava e sustentava.
Como explicava à época Georgi Dimitrov, dirigente da IC, os círculos imperialistas tentavam «descarregar todo o peso das crises sobre os ombros dos trabalhadores»; «resolver o problema dos mercados mediante a escravização dos povos débeis, (…) o aumento da opressão colonial e uma nova partilha do mundo por meio da guerra»; travar o «crescimento das forças da revolução por meio da destruição do movimento revolucionário» e, em primeiro lugar, da União Soviética. Para tudo isto, garantia, necessitavam do fascismo.
Ao desvendar a natureza do fascismo, o movimento comunista internacional apontou também o caminho da resistência – e da vitória: a constituição de amplas alianças sociais e políticas antifascistas, capazes de isolar e combater a ameaça principal que estava então colocada, o nazi-fascismo.
Também hoje, importa ver para lá das aparências dos que, afirmando-se “anti-sistema”, são o pior que o sistema capitalista produziu e nada mais têm a oferecer do que criar, pela repressão e a restrição de direitos e liberdades, condições favoráveis a um aumento ainda mais drástico da exploração. E combater sempre, venha de onde vier, o incremento do militarismo.
2. A guerra é intrínseca ao imperialismo
Em 1915, Lénine publicou “O Socialismo e a Guerra”, onde apontava a necessidade de «estudar cada guerra separadamente»: aquela era, definitivamente, uma guerra imperialista, entre «os maiores proprietários de escravos para preservar e fortalecer a escravatura».
Fazendo o mesmo exercício para a Segunda Guerra Mundial, concluímos da sua natureza dupla: uma guerra inter-imperialista (com as potências derrotadas ou lesadas no anterior conflito mundial a procurarem disputar colónias, fontes de matérias-primas e zonas de influência com as demais potências) e, ao mesmo tempo, uma guerra contra o primeiro Estado socialista do mundo – a União Soviética – e o movimento operário. É à luz desta realidade que se deve compreender a atitude da Inglaterra, França e, também, EUA: o abandono da República Espanhola ao fascismo; a passividade face ao rearmamento e ao expansionismo alemães; a entrega da Checoslováquia a Hitler na “traição de Munique”; e mesmo a “estranha guerra”, designação pela qual ficou conhecido o período inicial do conflito, em que à declaração de guerra anglo-francesa de 1 de Setembro de 1939 se seguiu uma total passividade face aos avanços das forças nazi-fascistas para Leste.
A aliança antifascista, tantas vezes solicitada pela União Soviética e rejeitada pelas chamadas “democracias ocidentais”, só começou a verificar-se após a Alemanha se ter voltado primeiro para Ocidente, antes de se concentrar no seu alvo estratégico e prioritário: era a Leste que o nazi-fascismo buscava o seu “espaço vital”, à custa da conquista de vastos territórios e da subjugação dos povos.
Seguindo o repto de Lénine, avaliemos o nosso tempo e as guerras sem fim com as quais o imperialismo norte-americano, com os seus aliados, nomeadamente da NATO e da UE, apesar de contradições, busca manter a hegemonia mundial conquistada há 30 anos – hoje seriamente posta em causa pelas próprias contradições do capitalismo e pela afirmação e desenvolvimento de outros países, espaços e organizações promotoras do multilateralismo.
Assim se explicam as guerras no Médio Oriente e no Leste da Europa; as ingerências, bloqueios e sanções contra qualquer país ou povo que não se submeta; a proliferação de bases militares e frotas navais, o aumento das despesas militares e a corrida aos armamentos; o abandono pelos EUA de importantes tratados de desarmamento e desanuviamento. Lutar pela paz, contra o militarismo e a guerra, pela criação de uma ampla frente anti-imperialista, são combates do nosso tempo.
3. Quem ganhou a guerra?
Ao contrário de versões hollywoodescas, a verdade é que foi a União Soviética – os seus povos, o seu Exército Vermelho, o seu Partido Comunista – a principal obreira da vitória: foi na Frente Leste que a Alemanha perdeu a imensa maioria das suas forças; ali se travaram as batalhas decisivas (Moscovo, Stalinegrado, Kursk, não esquecendo a heróica resistência aos 900 dias de cerco de Leninegrado, entre outras); foi o Exército Vermelho que libertou o campo de extermínio de Auschwitz e forçou a rendição dos nazi-fascistas em Berlim; foi o seu exemplo heróico que animou a resistência popular noutros países.
Isto não é um pormenor. Ao contrário do que sucedeu no pós-Primeira Guerra, cuja paz fora – afirmou-o Lénine – «ditada por bandidos», a natureza profundamente antifascista, democrática e progressista do segundo pós-guerra resulta precisamente da força e do prestígio com que a União Soviética, os comunistas e outras forças antifascistas saíram deste conflito: as revoluções socialistas e populares, os direitos alcançados, o imenso movimento de libertação nacional e o fim do colonialismo, a criação de uma ordem internacional mais justa são disto prova.
Que estas questões estejam ainda no centro do debate ideológico e dos conflitos internacionais só atesta da sua actualidade.
Fonte: site Avante







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